quarta-feira, 1 de julho de 2020

'FARMVILLE' MADEIRENSE OU 'QUINTAVILÃO'

Em 2009, surgiu o jogo do Facebook – FarmVille. Foi um jogo que rapidamente se “viralizou”.
Todos gostávamos de cuidar de uma quinta, tradicionalmente dizendo, de um poio em que se plantavam e semeavam desde tubérculos, plantas, frutas, legumes e animais...

Era uma aventura, em que esperávamos horas e horas para ver crescer os produtos e obter os respetivos ganhos. Fazíamos trocas comerciais ou oferecia-se aos nossos vizinhos virtuais regalias, era uma coisa fabulosa, parecia que tínhamos regressado ao século XX, as trocas eram em produtos agrícolas virtuais.

Todos fomos por um pouco um agricultor virtual, no fundo, todos gostaríamos de ter uma quinta, mas sem ter o trabalho árduo.
Recentemente, ao ver umas fotos partilhadas pela conta de Facebook: Madeira Quase Esquecida vi uma foto da zona do Campanário em que, antigamente, via-se diversos poios todos cultivados, que, na atualidade, que nada têm, além de mato, tudo completamente esquecido e votado ao abandono.

Imaginemos que se transformava a Madeira numa espécie de jogo de agricultura? Seria algo inovador.

A Madeira nunca irá competir, a nível de agricultura, com o Continente, outros países europeus, muito menos países da América Sul, se essa competição se ficar pela quantidade, senão pela qualidade. Achar isso e/ou sequer pensar nisso é uma perfeita ilusão, a nossa dimensão e as caraterísticas da orografia são muito complexas.

Mas vemos que estes terrenos abandonados mostram um desinvestimento na agricultura madeirense. Ouvimos falar em investimentos na agricultura acessos ou águas, mas se esses milhões fossem distribuídos por todos os agricultores, daria para investirem nas suas culturas, modernizarem para os próximos 10 anos.


Investir nestes terrenos é também proteger as localidades de incêndios e também de enxurradas.

A Região terá de inovar e criar um plano regional para um investimento na agricultora biológica e única e exclusivamente na mesma, tudo isto será importante para o nosso desenvolvimento. Atualmente, a agricultura não é feita pelos homens que, como o meu avô, que pegavam na enxada e na foice e passavam o dia a cavar e a mondar, hoje é feita por pessoas formadas com conhecimentos, não só dos antigos como aqueles empíricos, mas várias tecnologias para evolução e desenvolvimento da sua cultura.

Outro ponto importante é que a grande maioria destes terrenos são de herdeiros que nunca se vão entender, pois cada herdeiro acha que merece mais que os outros, algo que é necessário resolver-se de forma mais ágil e com base no Direito. Como se pode resolver e forçar os herdeiros a entenderem-se? Utilizar a medida que a CMF fez, isto é, obrigou a que os herdeiros das casas reabilitassem as suas propriedades, tudo pelo aumento do IMI, algo já previsto na lei.

Todos gostamos de ser agricultores virtuais, ninguém quer ser agricultor na verdade, mas aqueles que procuram ser, encontram tantas e tantas dificuldades, desde a falta de terrenos, os apoios são tão burocratizados que é muito difícil atingi-los, além da falta de seguros para as colheitas e outros entraves.

Faz parte da evolução humana, pois só a agricultura fez-nos crescer enquanto humanos, a Madeira parece estar a abandonar a sua raiz, literalmente, no solo que lhe alimentou e alimenta os veios do seu ser, e, nestes tempos de pandemia, todos os autores de setor primário foram fundamentais para a nossa sobrevivência.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

O PASSADO E O AMANHÃ


O nosso grande colonizador, o mais conhecido no Mundo, aquele que escraviza fãs e subordina adversários - é esta a discussão que está na baila, certo? – é o futebol. Será que vão vandalizar ou pichar as estátuas e bustos do Cristiano Ronaldo? E daqui a 500 anos, existirá alguém que dirá que existiam uns homens que praticavam um desporto bárbaro, um desporto ridículo – dirão alguns, um desporto que fazia milhões de pessoas discutir, apoiar e ir a todo o lado, movidos por uma paixão inexplicável.
Sim, é isto que o futuro da humanidade pensará de nós.

É que hoje alguns pseudointelectuais dizem e escrevem sobre os descobridores e navegadores portugueses que simplesmente mudaram o nosso Mundo. É julgar os comportamentos desses heróis com os nossos valores civilizacionais da atualidade.

Será que a questão será só com os afrodescendentes? Será que ninguém pensa que os romanos escravizaram os povos que dominaram, fossem eles hispânicos, fossem judeus ou bárbaros? Mas nós na sociedade ocidental descendemos deles todos.

Mas será que este sentimento de culpabilização ou querer culpabilizar pessoas, heróis que tanto fizeram por Portugal, faz sentido? Por exemplo, alguém acharia por bem tirar a estátua do João Gonçalves Zarco da Avenida Arriaga? É claro que não, faz parte da nossa história. Foi um herói, como outros tantos, que atravessaram o oceano para descobrir novas terras.

Há vários pontos importantes a considerar. Foram os portugueses que levaram os valores ocidentais da época para a maioria desses povos, fosse no continente africano, americano e também asiático. É claro, que, segundo os valores da época, agimos segundos conceitos e valores que então estavam ainda em decorrência do que vinha da Antiguidade e da Idade Média, não estando em debate a bondade desses mesmos valores em parâmetros da civilização atual. O que estavam em questão é quem eram os mais avançados no cruzamento de novos mares e novas terras. Eram os portugueses – um grande povo e com grandes líderes.

Porque será que não se faz manifestações globais contra o que se passa na República Centro Africana? No Iémen? De hoje!

Será que aqueles que falam e gritam tanto para acabar com estátuas e mais não sei o quê… Também dizem o mesmo de vários monumentos na Alemanha, onde os jovens estudantes alemães vão a prisões da Gestapo, vão a campos de concentração seja na Alemanha, seja na Polónia e presenciam e estudam o passado, encaram o mesmo e entendem que aquilo foi errado, mesmo aos princípios éticos da época, aliás, em algo incomparável com a época dos descobrimentos. Revisitar o passado em atitude de reflexão porque o passado não se apaga.

Finalmente, questiono-me - será que se vai exigir a outros povos que saquearam a nossa terra de obras de arte e tantos outros recursos a devolução? Corsários a mando de reis e imperadores que invadiram Portugal. Hoje perante isso só terão uma opção devolver aquilo que é legítimo dos portugueses. É isso?

Na passada segunda-feira, ouvia um comentador num canal português uma anedota, que há muito não ouvia, estavam dois portugueses a dizer mal de Portugal: “somos um país de corruptos”, “somos um país de bandidos”, “Portugal na verdade não tem nada que preste”… Até que um questiona: “Como é possível termos sido aquele Povo Glorioso que deu Mundo aos Mundos?” e o outro responde: “Nós não somos esse Povo, nós somos aqueles que ficámos cá…” De facto, é verdade, em parte a mentira é outra, porque os madeirenses são, com efeito, o Povo Glorioso de Portugal que se aventurou no além-fronteiras!

quinta-feira, 4 de junho de 2020

OH CAPTAIN! MY CAPTAIN!


Esta pandemia trouxe algo que poucas entidades portuguesas tinham: o teletrabalho.

A verdade é que o teletrabalho permite ou permitiu que empregadores abusem do mesmo, deixou de existir horário de trabalho, alguns usam as suas ferramentas pessoais e não as fornecidas pela sua entidade patronal e cria-se uma tensão na vida familiar.

Com o teletrabalho deixou de existir o início e o fim do dia de trabalho, este passou a um fluxo constante, sem o fim, a fronteira deixou de ser o espaço/tempo. Parece quase uma teoria de física quântica, mas não é! O colaborador estará sempre do outro lado do email e do telemóvel.

Vamos ao exemplo dos professores, pois há quem ache que para eles tudo ficou facilitado ou sem nada para fazerem, mas recordo que o corpo docente em Portugal, por muito bom que seja, já possuí alguma idade e a renovação tem sido feita paulatinamente.

Várias entidades gritaram que existiam alunos que não tinham computadores ou lá o que fosse para assistir às aulas, prontamente existiu uma solidariedade, e bem, para garantir os equipamentos. Já os professores ninguém quis saber, se tinham ou não computadores e ferramentas para possibilitar as aulas on-line. Além do mais, é ilegal a utilização das ferramentas pessoais do ponto de vista do Direito do Trabalho.

Os professores preocupados com o futuro dos seus pupilos, levantaram-se e com os seus recursos, realizaram vídeo-aulas, algo que muitos pensam: “mas aquilo foi só 15 minutos de vídeo.” Mas para esses 15 minutos, esquecem-se que o professor teve de preparar a aula, colocar PowerPoints ao lado da sua imagem, fazer edição de vídeo, tudo para que chegue aos seus alunos, esses 15 minutos, demoraram ao professor mais de 2 horas a preparar.

Tudo isto parece muito simples… Mas não é!

Eu, apesar do meu filho ainda estar no jardim de infância, a educadora fez 2 vídeos diários para as crianças, e tinha atividades, apesar de divertidas, davam trabalho ajudá-lo a criar e a desenvolver as suas capacidades. Reconheço o trabalho notável feito pela educadora e escola. Este momento deverá dar as entidades capacidades informáticas para a criação de sistemas de informação para serem paperless, já não faz sentido assistirmos nas ruas aos “contínuos”, que existiam no século XX, a levar um papelinho da secretária A para a secretária B, essas pessoas são necessárias em outras atividades de vital importância para os respetivos serviços, mas não para transportar um post-it.

As guerras são os momentos de disrupção, onde existe maior evolução tecnológica da humanidade, esta está a ser a guerra mundial do século XXI, a disrupção é esta.

Este é o meu subir da mesa, tal como acontece no Clube dos Poetas Mortos, para homenagear a todos os professores e educadores: “Oh Captain, my Captain our fearful trip is done”

Post Scriptum 1: Podemos criticar o antigo Primeiro-Ministro José Sócrates por vários motivos, mas uma das boas medidas foi dar a uma geração meios informáticos, entre os quais estava o conhecido Magalhães, custou milhões, mas milhões de famílias tiveram acesso a computadores que de outra maneira nunca teriam.

Post Scriptum 2: Na Madeira também existiu outro programa que há muito foi abandonado, que era uma casa um computador, era socialmente fundamental, esta medida estrutural deve-se ao Presidente de então, ao Dr. Alberto João Jardim.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

SUPERPODER DE CONTRIBUINTE!


Noutro dia estava a rever o filme a Liga da Justiça, confesso que sou fã de todos os super-heróis, sejam eles da DC, sejam da Marvel. Neste caso há um diálogo entre o Batman e o Flash em que o Flash, a certo momento, pergunta ao Bruce Wayne (o Batman):

– E tu, qual é o teu superpoder?

– Sou rico… – esta é a resposta do Batman, pois, na verdade, ele não tem nenhum poder, simplesmente tem muito dinheiro e consegue ter todo e mais algum equipamento para atingir os seus objetivos.

Como no Mundo, que eu saiba, não existem superpoderes, os ricos devem ser os heróis das nossas sociedades, podem, por vezes, não combater o crime, tal como faz o Batman. Mas podem fazer filantropia.

Tal como faz o Bill Gates, que criou programas de vacinação mundial, e que financia projetos para encontrar curas para as mais diversas doenças, nomeadamente o corona vírus.

Quando se exige, diariamente, que todos sejamos heróis, isso não passa de uma falácia, porque não possuímos um superpoder e a grande maioria não é rica.

Por exemplo, veja-se o caso do nosso país, verifica-se que, neste momento, quem passa por novas e grandes dificuldades não são os muito pobres, estes, infelizmente, passam pelas dificuldades de sempre, nem os muito ricos. Quem passa a maioria das dificuldades, algumas delas acrescidas, é a classe média.

Os muito pobres já o eram antes da crise, alguns têm acessos, e bem, refira-se, a habitação social, rendimento de inserção social, cheques de alimentação e etc… Os progressos que se fez na segurança social é um verdadeiro sucesso e isto cria, diariamente, a possibilidade de milhares de pessoas sobreviverem no nosso país.

Já os ricos, pouco ou nada tenho a referir, alguns podem ter tido uma quebra nos seus rendimentos, mas não deixarão de ser ricos, outros até viram aumentar os seus rendimentos, porque, numa crise, há sempre novas oportunidades de negócios para alguns setores.

Já a classe média, com esta crise, clama por heróis… Alguns entraram em lay off, logo tiveram uma redução drástica nos seus rendimentos, outros perderam complemente os seus rendimentos, aqueles pequenos empresários, logo deixaram de poder cumprir as suas obrigações estatais com os respetivos impostos, mas, mais grave que isso, alguns deixaram de poder cumprir as suas obrigações familiares.

A classe média, que é a força do trabalho para os ricos é quem mais contribui para o estado social e neste momento está a necessitar de ajuda e as dificuldades aumentaram diariamente até se dar uma recuperação económica completa, até se controlar ou soubermos viver com este vírus. Outro exemplo claro e que aparece como escandaloso nestes tempos de crise pandémica é pensar como é que é possível o Estado continuar a não deixar que os bancos possam falir como todas as outras empresas. Separou-se o BES bom do BES mau, o mau ficava com as dívidas e ia enterrar-se milhares de milhões de euros num buraco negro. Já no BES bom ia ficar o filé mignon, dizia-se. Mas é este banco bom que se tornou um sorvedor sem de fundos públicos. Como é que podemos explicar a esta classe média que se vai enterrar mais de 700 milhões, outra vez, no BES ou no Novo Banco, mesmo sob a forma de empréstimos. Depois como é que se explica que este mesmo banco queira pagar prémios aos gestores, num valor que é o dobro de um concorrente. Alguém consegue entender?

Depois temos outro exemplo, que é a TAP, que foi privatizada, que foi “nacionalizada” em 50%, que foi não sei o quê muito bem. Dizem ou escreveram que a privatização permitia renovar a frota e mais não sei quantas coisas… Mas, agora que voltou a ter uma espécie nacionalizada, a mesma TAP, após uma injeção de dinheiro, necessita de mais 350 milhões dos contribuintes. E quem vai pagar? Os ricos que compraram a TAP, não; os pobres também não. Será outra vez a classe média. A TAP não faz serviço público, logo deixe-se privatizar de vez e nas linhas necessárias faça-se concursos sérios. Repare-se que o serviço público para o Porto Santo, nem é a TAP a fazer, mas um privado espanhol.

Enfim…

Voltando ao filme… Penso que, se o Flash perguntasse a mim qual é o teu superpoder?

Eu responderia: Sou um contribuinte Português da dita classe média!!!.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

E ENTÃO MATAREMOS A SAUDADE!

Nestes tempos de confinamento, o meu filho não sai de casa desde o dia em que o Governo decretou o fim das escolas, com três exceções.

Uma das vezes, tivemos de sair por uma ida ao médico e passámos pela creche, pois ele tinha muitas saudades da mesma. Ao passarmos estava lá a diretora a zelar pela mesma, para que um dia tudo reabra. Ele ficou muito feliz, o brilho nos olhos ao ver a escola, ao ver a Diretora, ao ver que um dia voltará à escola, o lugar onde estão os amigos e as suas educadoras deixou-o radiante.

Felizmente, nós temos um logrador e brincamos, corremos, fazemos exercícios, brincamos à bola… ou, simplesmente, ficamos a olhar o céu… E, parafraseando a canção, não deveremos ser os únicos a fazê-lo, a olhar o céu! Neste sábado, usamos uma das exceções do Estado de Emergência: “i) Em deslocações de curta duração, para efeitos de fruição de momentos ao ar livre;” e demos a volta ao quarteirão e, ao passarmos numa rua, soprou uma leve brisa ao que ele me exclama: “Gosto tanto deste frio, papá!…”

A vida é complexa, é certo, o vírus tem sido péssimo para todos, mas momentos como a brisa a beijar-nos o rosto, até quando pudermos voltar a sentir o cheiro do mar, o aroma silvestre da floresta das nossas serras, vermos o verde, até andarmos no carro para ir visitar os avós, podermos dar um abraço àqueles de que mais gostamos será algo tão… como é mesmo a palavra?

Saudade, será essa?

O meu filho, com os seus 4 anos, como qualquer lusofalante, tem um sentimento que não consegue compreender, o mesmo sentimento e que nós temos e compreendemos e entendemos o que ele não entende ainda, e, todavia, sente já!

Ele sabe que existe uma doença na rua, sabe que quem não usa máscara e luvas são as “pessoas más”. Sabe que o pai, por força da profissão, tem que ir trabalhar por todos e para todos, mas não sou o único, são muitos aqueles que o fazem. Ele sabe que a doença só passará se ficarmos em casa e, após isso, voltar a estar com os seus amigos, por quem sente aquele sentimento que não sabe explicar: saudade.

De facto, só nós portugueses, com o nosso fado, melhor do que qualquer outro povo, conseguimos entender o que se vive… É uma saudade pelo que se viveu, uma saudade por aquilo que se gostava de viver. É na verdade a saudade que se sente! E de nós, essa melancolia ficou na língua portuguesa e de que todos os que a falam.

Para matarmos, não só este bicho, mas a saudade, temos que manter-nos confinados em casa, usar máscaras, usar luvas… Se todos cumprirmos, tenho a certeza que mais cedo do que esperado controlaremos o bicho e saciaremos a saudade.

Sim, tu estarás, nós estaremos, de novo, todos juntos!

quarta-feira, 8 de abril de 2020

NAQUELE TEMPO DA MULHER CONFINADA AO LAR

Nesta quarentena ou confinamento, apercebi-me de que a minha avó sempre viveu em quarentena, confinado ao espaço do lar. Ora vejamos… A minha avó raramente vinha à cidade, sim, porque antigamente a Choupana não era a cidade, a cidade era só a partir do Campo da Barca para baixo.

Ora vou explicar-lhes como era a quarentena da minha avó. Ela bordava, limpava a casa, fazia as respetivas refeições, engomava, lavava a roupa, não havia, nem em projeto, máquina de lavar roupa, metia a roupa no estendal e cuidava dos filhos e, posteriormente, de mim. À tarde, ouvia na telefonia a música pedida e havia, diariamente, a música do carro preto ou das 24 rosas, são músicas de que nunca me vou esquecer.

A quarentena era mais ou menos quebrada quando falava com as irmãs ou os vizinhos, uma bilhardice na beira do terreiro, mas, muitas vezes, era dentro do próprio quintal, junto à casa, logo havia a distância de segurança. Mas mesmo essas vizinhas e irmãs também viviam na quarentena do que então se dizia, na escola, mãe, doméstica.

A vida que a minha avó levava era de uma quarentena permanente, era impossível haver qualquer vírus. As compras eram feitas na venda abaixo de casa, a que mandava algum dos filhos ir comprar, com tudo escrito ou no vale ou no rol, ou trazia o Sr. Gilberto, uma espécie de Glovo da época, na sua cesta a subir o caminho do Meio, muito íngreme.

Ela só vinha à cidade, em situações inadiáveis, como fazer o Bilhete de Identidade, tratar de algum assunto na Caixa, nome abreviado da Previdência, ou ir a uma consulta.

Já o meu avô trabalhava numa serragem e, obrigatoriamente, tinha de vir para a cidade, mas, quando chegava a casa, vestia a roupa de casa e ia para a fazenda, cavar, semear, plantar ou fazer o que quer que fosse. Até regar, apesar dessa rega ser, muitas vezes, de madrugada, pois era quando “tinha” a água.

Na altura, não existiam redes sociais, só tínhamos uma televisão e imaginem só, só dava RTP-Madeira. Já no sou tempo em só havia a TVE, via Canárias. Isto sim, era viver em isolamento e era um isolamento, não obrigatório, mas necessário.

Não via ninguém se queixar. Era assim a vida da mulher confinada ao lar.

Post Scriptum: felizmente que esse isolamento acabou. Mas hoje, respeitemos a quarentena para o bem de todos.

quarta-feira, 25 de março de 2020

BEM HAJA, GENTE DA SAÚDE!

Raramente, ou melhor, nunca escrevi um artigo sobre a área em que trabalho, contudo vivemos uma época extraordinária, como tal este artigo quebra essa regra de autorregulação porque, vivemos tempos de exceção que requerem medidas de exceção.

Nestas semanas, infelizmente, vivemos um tempo inaudito com o covid-19. Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar o trabalho fantástico dos médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica, técnicos superiores de saúde, assistentes operacionais, farmacêuticos, padeiros, funcionários dos supermercados e etc… Contudo, há uns que são esquecidos, ou melhor ninguém sequer imagina que eles existem.

Assim, gostaria de fazer minha homenagem a todos aqueles que trabalham para que a base e a sustentação da saúde exista e funcione. Para todos nós é claro que um serviço de saúde nunca funcionaria sem médicos, sem enfermeiros…

Mas será que funcionaria sem os fogueiros? Sem os fogueiros não haveria água quente no Hospital, não haveria vapor para os equipamentos de esterilização.

Será que funcionaria sem os eletricistas? Havia quem perguntasse, a razão de existir eletricistas a noite toda no hospital, alguém já pensou o que aconteceria ao Hospital se faltasse a luz, os equipamentos de cuidados de intensivos, o dito: “ligar às máquinas” claudicaria em poucos minutos, pois só o eletricista pode colocar os geradores a funcionar.

E os técnicos de electromedicina? Quando um equipamento avaria, sim, são máquinas que, na sua maioria, funcionam 24 horas sob 24 horas e é normal avariar, mas os técnicos estão lá assegurar a reparação desde um simples aparelho de tensão, à TAC, aos parâmetros da água da diálise, entre outros. E os mecânicos, que garantem; a temperatura ideal dos frigoríficos, onde estão medicamentos e vacinas de tão de alto valor, vitais para a vida, passe a redundância; as máquinas de esterilização, que garantem o material para fazer diversas cirurgias, e os ar condicionados de todos os serviços.

E os canalizadores? Sim… É verdade o Hospital também tem canalizadores, não é preciso explicar a razão. Os pedreiros, necessários à manutenção e reparações de conservação.

Os carpinteiros, que reparam as portas, as mesas, cadeiras; os serralheiros, para reparar os carros, aqueles que levam o material para de recolha de sangue ou fazer uma simples rampa, ou um simples varandim de apoio, reparar ferros e outras peças tão especificas.

Os informáticos, fulcrais num mundo digitalizado, asseguram a consulta de um médico ao processo de um doente, a receita para a farmácia. E no apoio de todos estes setores há uma equipa de administrativos que trata das compras do material necessário a que tudo funcione, inclusive o serviço de saúde.

Mas não são eles os únicos invisíveis fundamentais para o mesmo serviço de saúde funcionar? É claro que não, existem todos os administrativos e juristas de uma área tão difícil que é o aprovisionamento, aquele que é muitas vezes criticado nas notícias, sem qualquer razão ou por fake news de que não existe material, eles são o pessoal das compras, que obedece a um código de contratos públicos tão complexo e têm a missão de garantir que nada falte, desde uma simples pilha de um termómetro, a uma máscara, a uma prótese… Eles garantem que existe o material necessário para todos nós!

Como é óbvio, existem áreas fundamentais como a cozinha, os recursos humanos, financeiros…

São estes homens e estas mulheres os heróis invisíveis e que também deixam as suas famílias em casa e muitas vezes arriscam as suas vidas para que tudo o que é visível funcione! E todos, visíveis e invisíveis, tornam possível a nossa crença, sustentada, de que a nossa Saúde funciona para que a Madeira possa seguir adiante.

Os Madeirenses, a todos eles, dirigem um alto e sonoro – bem hajam! Muito Obrigado!