quarta-feira, 13 de março de 2019

O Governo é bilhardeiro


Ponto prévio: O estudo que o Governo Regional encomendou sobre a realidade madeirense deveria ser mais regular para sabermos como está a Madeira e os madeirenses. Parece-me fundamental para entendermo-nos, mas também de alerta a todos os políticos. Ontem, acredito que o diálogo de muitas famílias em casa foi assim:

- Oh José! Sabias que o Governo encomendou um estudo sobre a gente? – interroga a esposa em casa, enquanto passa os olhos pelo JM.

- Ah sim… Li qualquer coisa… - responde o João, assim sem muito interesse, já que são todos assim…

- Afinal, eu sempre tinha razão, estou a ler o estudo na Internet e diz que há a perceção de existir muita droga e vem de barco, mas não nos arranjam o ferry. Já me viste isto!

- A sério? – incrédulo questiona o João, enquanto se encosta à Maria – Deixa-me cá ver isso!

- Eu bem te dizia que os “horários” estão uma desgraça, por isso peço-te sempre para apanhares-me. Eu saio de casa, aqui na nossa casinha, em São Gonçalo e para ir para o trabalho ali em São Martinho demoro quase uma hora, e tenho que apanhar duas camionetas, afinal não sou a única a dizer mal – argumenta a Maria.

- Eu bem sabia, eu digo-te, tantas e tantas vezes, que ir ao Porto Santo é caro, em especial a viagem, mais valia irmos à Calheta de férias - repara o José.

- Para isso, era preciso existirem unidades hotelarias suficientes. Olha e isto aqui da educação, eu cá quero que os nossos filhos cheguem à universidade, mas repara que depois não há emprego para eles. Vão ter que ficar no continente, pois não haverá emprego para eles, nem formação para evoluírem. Que tristeza, meu José…

- Tens toda a razão – abana a cabeça, afirmativamente, o José.

- Mas olha, tantas vezes digo que os venezuelanos são os protegidos deste governo, e tanta gente concorda comigo – desabafa Maria.

- Oh Maria, deixa-te dessas coisas, não estás a ver o que passaram esses nossos conterrâneos que tiveram que fugir.

- E mais, sabes o vizinho, o Manel, a mulher e as filhas a viverem de subsídios, de facto é uma pouca vergonha, não querem trabalhar e vivem à nossa custa, mas esses cá são madeirenses – lá começa a bilhardice da Maria.

- Já chega dessas bilhardices, quero lá saber dos vizinhos! – José coloca um ponto final nas bilhardice. - Aprecia-me isto, eu há que tempos que digo no Governo que se ganha mal e estamos abaixo da média nacional, temos produtos mais caros que no continente e estamos a pagar demasiado pela casa, temos que ir negociar com o banco - observa o José.

- Ai meu José, já me viste que não sou a única a gostar do Tony Carreira, nem do nosso presidente, que é um querido.

- Deixa-te de coisas, Maria, não vês que os madeirenses sentem é orgulho no homem que mudou a Madeira, esse sim, é um grande ídolo, o nosso Presidente Alberto João Jardim – conclui o José.

- Olha José, já se faz tarde, vai mas é fazer o jantar que já estou com fome e está quase na hora da novela da TVI.

- Já vou, Maria. Mas tu já me viste que esta malta do governo é mais bilhardeira que tu… - satiriza o José, com aquele seu sorrisinho característico.

Este podia ser o diálogo de qualquer família madeirense, tentei acabar com os estereótipos, tudo o que tem de “estereótipo” são dados do estudo da Aximage.

Quero deixar outros dois destaques:

Primeiro: o Cristiano Ronaldo é a personalidade mais idolatrada pelos madeirenses.

Segundo: os políticos e seus líderes são os menos confiáveis para os madeirenses, bem como os deputados.

Post Scriptum: Quero só fazer um reparo ao estudo e aos técnicos da Aximage: já não existe “presidente da Assembleia Nacional”, pois não acredito que os madeirenses ainda confiem ou não nele, pois esse deixou de existir em 1974, o que existe atualmente é Presidente da Assembleia da República.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Princípio de Peter


Este princípio foi originalmente publicado em 1969 nos Estados Unidos da América por Laurence Johnston Peter e Raymond Hull. Este princípio de uma forma muito simples indica: “Num sistema hierárquico, todo o funcionário é promovido até ao seu nível de incompetência.”

E existem dois corolários:

1. Com o tempo, cada posto tende a ser ocupado por um funcionário que é incompetente para realizar suas funções;
2. O trabalho é realizado pelos funcionários que ainda não atingiram o seu nível de incompetência.
Peter cita vários exemplos: como é o caso de Macbeth (uma figura fictícia de Shakespeare) que foi um excelente chefe militar, mas um rei incompetente; Hitler que foi um político competente, mas conseguiu encontrar o seu nível de incompetência como general; e por aí adiante… Acredito que ao ler este artigo consegue identificar em seu redor diversos exemplos. Exemplos de pessoas que foram promovidas e que atingem o seu nível de incompetência.

Uma das considerações desta teoria é que a “super-competência” é combatida ainda mais do que a competência. Um dos exemplos enunciados, neste caso citado pelo professor Bob Sutton: “Os melhores professores em universidades de prestígio são pressionados por seus pares e líderes para fazerem um trabalho menos bom de ensino porque “estão a fazer todos os outros a ficarem mal”.
Assim, o sucesso torna-se “prejudicial”, porque ameaça a hierarquia; a conclusão disto é que “nada tem tanto sucesso quanto o insucesso.”. Enquanto a incompetência prejudica, apesar do objetivo das corporações é obter a máxima eficiência, a verdade é que não há como evitar e acabarem estagnados nos seus postos. Logo, toda a estrutura da organização é colocada em causa e minando. E logo surge outro obstáculo secundário é que nas burocracias as regras para destituição de alguém que foi promovido são mais difíceis de lidar do que aquelas que levam à promoção.

Já Rodney Crawford aplicou este princípio à administração pública, o que torna a situação bem mais complexa, pois no serviço público poderá continuar a cometer erros até que se reforme, pois a demissão não é uma opção para os funcionários públicos.

Como é óbvio nas pequenas organizações e startups, tal não acontece, já que as mesmas só sobrevivem quando superam vários erros, mudam, transformam-se até focarem-se no que são competentes a realizar, e muitas vezes acabam quando chegam ao ponto de incompetência. Já nas grandes empresas é quase semelhante às organizações públicas.

Já existe sugestões e ideias para evitar que este princípio afete a organização e que deixarei para outro artigo…

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

RECONHECER GUAIDÓ: BOM CENSO OU CENSO ELEITORAL?

Ponto prévio: Não sou apoiante de Maduro, nem de Guaidó e acredito que a Venezuela vai mudar muito brevemente, esperemos que democraticamente.

Portugal tem mais de meio milhão de emigrantes e ou lusodescendentes na Venezuela. Portugal reconheceu Guaidó como presidente interino da Venezuela. Agora, todavia, chegou-se a uma situação de impasse, com a atitude intransigente de Maduro. Isso é problemático para um país com uma imensa comunidade naquele país. Ao contrário de Itália, que, tal como Portugal e Espanha, possui milhares de cidadãos lá, mas que alega o princípio da não interferência que foi reconhecido pela Organização das Nações Unidas.

Se para os Estados Unidos da América e outras grandes potências o interesse é financeiro e económico, para Portugal o interesse, além de humanitário, poderá, segundo alguns, ser também eleitoralista, pois é do conhecimento geral, que, mesmo sem haver qualquer estudo de opinião, aqueles que fugiram da Venezuela para a Madeira não apoiam, nem estarão com Maduro. Daí apoiar Guaidó poder rende votos em maio, setembro e outubro, mas a que custo?

Qual é o custo que isso trará? Isto preocupa-me e deveria preocupar todos os madeirenses e até os emigrantes que regressaram da Venezuela, pois têm lá família. Uma coisa é manifestarmo-nos contra o regime lá vigente, outra é o cuidado diplomático com que a questão deve ser tratada. A razão é simples: existem lá meio milhão de emigrantes e agora com quem é o governo português falará, sabendo-se da obstinação do regime chavista? Reconheceu Guaidó, mas quer ter uma política de diálogo com o governo de Maduro. Pelo menos, foi isto que foi entendido. Mas alguém acha que Maduro irá tolerar isto? Se houver um conflito, isso pode colocar em causa a segurança de familiares, amigos e concidadãos na Venezuela. Repare-se que a retaliação do regime de Maduro já se revelou. As forças especiais portuguesas foram impedidas de entrar em Caracas para proteger a nossa embaixada. Entre as vantagens político-eleitorais e a vida de muitos portugueses e madeirenses é aconselhável prudência.

Recordo que Alberto João Jardim recebeu Pieter Botha, que, na altura era presidente da África do Sul, num período em que se adivinhava o fim do “apartheid”, contudo teve que receber por uma causa maior, que eram os madeirenses. Aliás, houve então uma certa dialética, dando-se à Madeira uma certa liberdade nessa questão, um pouco diversa da política nacional. Na altura, o Governo Francês recebeu a comitiva sul-africana como visita de Estado. A Madeira ter recebido a comitiva sul-africana permitiu garantir a continuidade de pontes diplomáticas com um país com tantos madeirenses. A verdade e que isso não impediu, após a transição de regime, a Madeira e Alberto João de conseguirem manter e garantir pontes com Nelson Mandela e o Governo Sul-Africano.

Temos que aprender com a história! É certo que não ter recebido Botha teria sido mais confortável para a Madeira, mas poderíamos ter colocado em causa empresas, empregos e mais do que tudo a vida de muitos madeirenses na África do Sul.

Talvez o interesse dos lusodescendentes originários deste território aconselhe a uma estratégia dialética combinada entre a Região e a República, até porque a dicotomia entre anjos e demónios não se aconselha na diplomacia, quando há variegados interesses que, de um lado e outro, se movimentam, incluindo questões geoestratégicas. Preconiza-se pragmatismo sem perder a noção dos grandes princípios. A diplomacia é a gestão prudente dos dados em presença. Ainda vamos a tempo de compreender isso.

Neste momento, só nos resta rezar e aguardar que a Venezuela não caia numa guerra civil e que Portugal consiga proteger os seus filhos.

​Post Scriptum 1: Não posso deixar de prestar a minha homenagem às crianças que morreram no Ninho Urubu (Centro de Treinamento George Helal) do Flamengo, e que perseguiam o sonho de serem futebolistas profissionais e morreram precocemente, um sonho que, infelizmente, terminou. Como diz o ditado grego: “morre jovem quem os Deuses amam”.

Post scriptum 2: Era importante ler os estatutos dos partidos antes de fazer notícia, pois não existe a “modalidade” “militante suspenso a seu pedido pela “moral” e os “bons costumes” e já agora era bom existir também a modalidade: “militante suspenso a seu pedido, pois não ganhou o candidato que eu queria.

Publicado no JM-Madeira em Siga Freitas

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Planear é colaborar


No final de cada ano, é sempre importante fazermos um balanço, todos os empreendedores o fazem, mas mais importante que isso é planear o futuro.

Por isso, é importante voltar a seguir um novo ciclo de planeamento. Para 2019, todos os empreendedores deverão começar a reler Arte de Guerra de Sun Tzu.

Assim, há que começar pelo primeiro passo: compreender o terreno, neste caso em que cenário em que está a empresa.

Será importante relembrar e refletir sobre o passado, em especial sobre o conquistado, porque esse passado traz enormes ensinamentos. Novas visões ou até aprimorar a visão para a startup ou empresa.

Elaborar estratégias de novas conquistas, mas acima de tudo usar o Pentágono Estratégico como base para elaborar a estratégia da empresa.

Todos os anos deverão existir novos objetivos, novas metas, todas realizáveis, não ao ponto de conseguir-se atingir no primeiro mês ou semana, mas durante um ano. Assim, os objetivos estarão validados.

Sem dúvida que o caminho a percorrer é um enorme desafio para atingir esses objetivos, esse caminho e alternativas irão condicionar a ação, mas mais que isso deve-se cuidar e saber que é esse mesmo o trajeto que se pretende para a empesa.

Conhecer a concorrência, este ponto é importante, mas não o mais importante, porque é mais importante conhecer o alvo e quais os clientes que se procura e onde se pretende estar. Mas ainda existe um ponto mais importante que o anterior, consegue saber qual o que se deve mais valorizar? Os colaboradores! Sem colaboradores que se sintam envolvidos nas decisões, nas visões e parte da estratégia da empresa, só assim se irão sentir parte da família, só com os colaboradores é que os clientes serão elevados ao nível que devem estar.

Por isso, para 2019 há que colocar no cerne do planeamento: os colaboradores.

APARIÇÕES DE FÁTIMA E DA JUSTIÇA


A semana passada, Joana Amaral Dias divulgou o relatório da Auditoria à Caixa Geral Depósitos (CGD), algo que os deputados impediram em votação de ser divulgado. Ainda bem que foi divulgado.

Ficamos a saber negócios ruinosos, negócios que colocam a CGD como um dos bancos que mais ajuda precisa. Há diversas questões que temos fazer, aquelas que habitualmente fazem a quem quer contrair um empréstimo para ter um local onde viver:

- Tem maneira de dar 10% de entrada?

- O que pode dar como garantia?

- E fiadores? Que tal os seus pais?

Já que quem aprovou, não necessitou de fazer essas questões, vamos passar à frente. E vamos ao segundo lote de questões:

- Qual a razão de ninguém ter sido executado?

- Qual a razão de muito dessa gente ainda viver à grande e à francesa?

- Qual a razão dos administradores terem recebido prémios, quando o banco estava a dar prejuízo?

Finalmente vamos ao terceiro e último lote de questões:

- Ninguém vai preso?

De facto, o que a Joana Amaral Dias fez, foi serviço público, é de interesse público e tem a máxima relevância nacional, pois muitos daqueles casos estão a prescrever.

Contudo, casos de 10, 20 ou 30 mil euros em créditos habitação, a CGD não deixa prescrever. Qual a razão? Há uns clientes que são filhos e outros enteados?

Ainda há umas semanas, ouvia no Levanta-te e Ri, um humorista a ter uma consideração que me levou a pensar:

“De vez em quando era bom a Justiça e Nossa Senhora de Fátima aparecerem, só para continuarmos a acreditar que existem.”

Post Scriptum 1: Em novembro o INE divulgou que os ordenados dos políticos e dos gestores executivos aumentaram em 7,1%. Também soube-se que os presidentes executivos das empresas do PSI-20 aumentaram na ordem dos 40%, já os salários dos funcionários dessas empresas mantiveram-se iguais. Está na altura de regular os ordenados máximos, nomeadamente ordenados e regalias que não poderão exceder 10 ou 20 vezes o valor do ordenado e regalias que o trabalhador mais mal pago dessa respetiva empresa.

Post Scriptum 2: Ontem, ficou-se a saber que Portugal em 2018 desceu uma posição no Índice de Perceções de Corrupção, obtendo 64 pontos e ocupa 30.ª abaixo da média europeia. Dá que pensar…

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

5.659 CANDIDATOS PARA 5 GERAÇÕES!


A semana foi notícia no JM-Madeira que há vários candidatos com licenciaturas e até com mestrado para serem assistentes operacionais. A verdade é que para 130 vagas existe 5659 candidatos. Uma situação preocupante…

Um dia imaginei esta entrevista, qualquer semelhança com a realidade, é pura e simples coincidência:

– Caro candidato, qual a razão que se candidata a este lugar de assistente operacional? – questiona o entrevistador, baixando os óculos até à ponta do nariz.

– Bem – o candidato enquanto coça o nariz responde - eu na universidade sempre gostei de apoiar tudo e todos… – conclui o licenciado em tachos e política pública.

– Apoiar, mas como? – com surpresa pergunta o entrevistador com o bigode farfalhudo.

– Sabem… – o candidato José Maria ajeita os ombros e esfrega as mãos argumentando – e com muita confiança – Eu na universidade fui presidente da associação de estudantes, levava as caloiras aos bares, às festas e a todo o lado. Sempre gostei de apoiar… reparem só, tive a melhor nota de sempre na cadeira de Cacique avançado, penso que sou mais que competente para satisfazer e apoiar sejam alunos, sejam professores e finalmente os pais!

– Mas… Para desempenhar estas funções não necessita de ter licenciatura, só precisava a escolaridade mínima obrigatória e o ordenado não é assim muito aliciante, não acha que tem competência para voos mais altos? Quem sabe… um cargo de dirigente político qualquer? – novamente o primeiro entrevistador, o dos óculos, aconselha em forma de interrogativa o candidato.

O candidato coça o pescoço e começa a pensar, olhando para o vazio ao fundo da sala, onde estava um quadro de ardosia já quase branco de tanto giz colocado lá.

Nisto, o terceiro entrevistador que não tinha tirado os olhos das folhas e do currículo do candidato múrmura para os outros entrevistadores:

– Este é o sobrinho do secretário de estado dos políticos perdidos e reclusos, já sabem como é…

– Ora… Caro José Maria, penso que podemos dar por concluída a sua entrevista, pode sair. – Conclui o entrevistador de bigodes.

Cumprimenta todos os entrevistadores e sai calmamente todo pimpão a sacudir as calças e fecha a porta.

– Este é aquele que temos que colocar em 2º lugar para entrar no concurso, para quando houver uma qualquer mobilidade e passar para técnico superior e está resolvida a sua situação, foi um pedido especial e temos que aceder, já sabem como é.

Tudo isto é pura ficção! Atenção é mesmo pura ficção.

O que é preocupante, é que os dados da OCDE de junho de 2018 mostram que são precisos cinco gerações para se sair da pobreza em Portugal. Nesse mesmo relatório ficou demonstrado que a mobilidade social não depende unicamente da educação, mas “está fortemente ligado à sua origem socioeconómica ou do nível de capital dos pais”. Esta é a demonstração clara que Portugal continua na cauda da Europa, mas também no Mundo, dificilmente um dia chegaremos ao sonho americano, aquele sonho em que aqueles que estudam, trabalham e esforçam conseguem atingir altos objetivos, mas essencialmente os seus sonhos.

Post Scriptum: Aconselho a leitura desse relatório da OCDE.

sábado, 29 de dezembro de 2018

Quando o Natal não chega


Os contos de Natal costumam ser povoados de crianças, avós, o Pai Natal e outras criaturas fantásticas e são ainda tocados pela magia desta quadra. E como todos os contos tradicionais costumam começar assim…

Era uma vez, uma menina chamada Amal Hussain*, uma menina de sete anos, que sonhava ser grande, que sonhava em deter as guerras, que sonhava, enfim, viver num mundo a que todos as crianças devem aceder. O que ela sonhava, sem o saber, era com o Natal, pois sonhava com a paz, o direito à infância e ao lar onde houvesse esse calor humano que traz a família, sonhava com o direito a ser menina e brincar com esse Menino que no-lo o trouxe, o Menino que o profeta da sua terra incluiu no livro Sagrado da religião que o seu nome, Amal Hussain, indicia. Sonhava então com um amanhã em que os meninos festejassem um Natal com esse nome ou outro, nessa data ou noutra, enfim, com uma nova Jerusalém em que todas as religiões se irmanassem numa Festa universal, ecuménica, sem os “ismos” religiosos que possam dividir, mas com o Amor que almeja unir.

Os raros brinquedos que teve foram só para acariciar com medo, com desespero, com um grito de súplica de amor em momentos de bombas… Ela não sabia, mas aguardava… Uma esperança… Esta não é uma história imaginada de Natal, é uma história real, uma história de uma menina chamada Amal que significa esperança e que nunca teve oportunidade de ter esperança na sua vida, muito menos alimentos. Amal Hussain foi uma menina que morreu num campo de refugiados no Iémen, numa crise provocada por embustes, como são todas as guerras.
Pronto… se calhar é melhor outro conto de Natal…

Era uma vez, na terra por onde Jesus passeou e evangelizou, uma menina de 12 anos. Rahaf Yousef nasceu na Síria, vive na Jordânia e hoje, quando escrevo, ontem, no momento da leitura, casou-se. Isto para uma mulher poderia e seria o dia mais feliz da sua vida, para Rahaf foi um dia em que ia vestida como uma princesa, mas não sabia o que lhe ia acontecer. Um homem mau, sem escrúpulos comprou-a e aproveitou-se da família que passa necessidades, pois é uma família refugiada, mas só a quer usar, pois ele, como fundamentalista, não sabe o que significa casar, simplesmente fingir e aí violentar a Rahaf, até porque casou a fingir. O desejo de Rahaf era brincar no parque infantil, e essa oportunidade está perdida. Ela queria crescer, queria poder regressar ao seu país sem guerra, queria viver como todas as meninas da sua idade…

Era uma vez, um senhor com 82 anos, o Sr. Manuel Nascimento, trabalhou ao longo da sua vida toda, conseguiu, humildemente, construir a sua casa para a sua família. Um dia, alguém, maldosamente, provocou um incêndio na floresta e o incêndio num outubro qualquer incendiou tudo, até a sua casa. Os governantes dessa terra, quiseram todos aparecer nas fotos, acotovelavam-se para ver quem tirava a melhor selfie, seja a limpar, seja a plantar, seja a reconfortar as vítimas dessa tragédia. A sua casa podia ser a casa do Pai Natal e o mesmo ficar sem a fábrica de brinquedos para continuar todos os Natais, todos os anos… Um desses governantes prometeu que, em dois meses, a sua casa estaria pronta, ainda a tempo do Natal. O Sr. Manuel, em lágrimas, acreditou, mas a sua esperança foi corrompida, porque corruptos que tudo secaram se aproveitaram das vítimas para enriquecerem a si e aos seus amigalhaços. Manuel, a quem tudo foi prometido, nada teve e faleceu sem ver a casa da sua vida passando mais de um ano e alguns meses. Mas deixou um último desejo ao seu filho: “Vai lá à câmara apertar com eles para te darem o que é teu. Eu já estou velho, já não me importo, mas tu, trata da tua vida.”

Estes são símbolos do Mundo, um Mundo em que o Natal não passa de uma quimera, pura e simplesmente não existe. Podia escrever outros contos baseadas em tantas crises, desde Somália, Venezuela, Níger, Mianmar e etc… Um Mundo tão pequeno e ao mesmo tempo tão desigual.

Sou um sonhador, gosto de imaginar a utopia, portanto quero que todas as pessoas consigam ter o Natal que é sinónimo de uma quadra feliz e de esperança perene nessa de chegar a ela. E que um dia, seja capaz de volver um Mundo numa eterna sinfonia de harmonia.

Com este conto multifacetado, ilustro que, enquanto todos nós temos oportunidade de estar junto das nossas famílias nesta bela quadra de Natal, gostava que, pelo menos durante estes segundos que lê este artigo, reflitam na criança Amal, na menina Rahaf e no senhor Manuel, seres a quem roubaram o Natal a que tinha direito.

*Amal Hussain foi capa da New York Times para descrever o horror vivido no Iémen.

Publicado no dia 25 de dezembro de 2018 no JM-Madeira

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

DA ESPUMA OU DA ESCUMA: TUDO MAUS RAPAZES: VENHA A FESTA!

A semana passada foi fértil em assuntos variados na política regional e quiçá nacional de que destaco a discussão do orçamento regional. Confesso que procurei acompanhar as medidas principais de que destaco a redução de impostos, tais como IRS, IRC, mas também o apoio às famílias, nomeadamente à educação.

António Costa abalou para o Afeganistão quando soube que, na Madeira, o seu antigo mandatário para as eleições internas andou a fazer ostentações, qual exibicionista de gabardine, que, na região batem qualquer concorrente. A atitude do mandatário pode ser repreensível, até porque estava num espaço da junta de freguesia. Contudo, também quem divulgou tais imagens violou um princípio sagrado da nossa democracia, já que revelou pouco respeito pelo espaço da mesma coletividade e da individualidade. Agora, porém, o deputado deveria ter a coragem, já que tem provas, de indicar quem foi que o entrelaçou. Para ele, para o seu partido o melhor é denunciar já, pois quanto mais próximo das eleições for, pior será.

Quanto ao deputado que indicou que “assume as suas responsabilidades”, esqueceu-se foi desses princípios quando a polícia o mandou parar, afora isso, esteve convenientemente. Mas como se diz: “faz o que eu digo e não faças o que eu faço.” Não devia ter suspenso o mandato, mas sim renunciado.

Perante tudo isto, da espuma – ou da escuma – dos dias pouco restou: a política, na sua substância, que era o orçamento, passou a secundário e agora com a Festa tudo se dissolverá como tudo o que caracteriza uma sociedade mediática. Já ninguém quer saber de nada da política e estará presente na noite do mercado, numa função do porco, na Placa Central, numa missa do parto… E nisto tudo é Natal. Mas, atenção… tenham cuidado, porque, se a polícia mandar parar, parem, e, antes de tudo, espero que não tenham consumido álcool, caso tenham consumido não conduzam, existem táxis disponíveis para irmos a casa ou, como se diz: “pode ir no carro do Armando, um bocadinho a pé, um bocadinho andando…”

Neste meu artigo, aproveito para desejar um Feliz e Santo Natal a todos os leitores do JM-Madeira, mas também pedir que os políticos, no próximo ano, portem-se bem e com elevação, pois teremos 3 atos eleitorais e espero que não valha tudo. Nós, madeirenses, merecemos alguma elevação.