quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

UM LÍDER – ASSUME-SE!


Hoje é o primeiro dia do ano, é um dia de reflexão do passado e de perspetiva do futuro. Esta madrugada passada, comemos 12 passas, uma por cada mês do ano na expetativa que 2020 seja melhor que 2019.

2019 trouxe para todos nós um Cardeal, trouxe um Governo de coligação, infelizmente, trouxe o aeroporto fechado demasiadas vezes, acidentes que provocaram a morte de várias pessoas, nomeadamente turistas, continuamos com a violência e homicídios em alta.

2020 poderá trazer novas perspetivas: uma vida melhor para todos, em especial a nível de saúde, a saúde é a pedra basilar nas nossas vidas, não precisamos de muito mais. Pois, com a mesma, conseguimos ter força para arregaçar as mangas e trabalhar e conquistar tudo o que se pretende, isto podia ser uma perspetiva coaching e de vendedor de banha da cobra, pois todos nós sabemos que, além da saúde, precisamos de um bocadinho de sorte. Não é preciso muita, é só um bocadinho. É tudo isto que peço para mim e para os meus.

As perspetivas ou expetativas que muitos demoram a perceber. Recentemente vi o Filme da Netflix de Fernando Meirelles: “Dois Papas”. Neste filme baseado em factos reais, pelo menos é assim que é apresentado, independentemente dos factos existentes ou pormenores serem ou não reais, há vários pontos que nos fazem refletir. Nós, povo, quando olhámos para o Papa Francisco ou o Papa Bento XVI vemos os contrastes entre ambos, mas em ambos há uma certeza, ambos são genuínos, ambos acreditam naquilo que transparecem. Não há um ponto intermédio. É nisto que nós, enquanto cidadãos, enquanto seres humanos, procuramos, procuramos líderes que não estejam no limbo da corda.

Que não são falsos genuínos, não queremos artifícios daqueles que não são juntos do povo e que querem transparecer que são. Ainda recentemente, o nosso Ronaldo dizia no Dubai: “humildade em demasia é vaidade” – esta frase não é em exclusivo dele, mas um saber popular que deve e pode ser aplicado em todas as áreas. Não podemos querer que alguém que se mostre junto da família, quando, na realidade, pelos diversos atos, nunca assim foi. Não se pode querer que alguém diga que é a favor da justiça, mas, ao mesmo tempo, pactue com a corrupção, dependendo do local em que se encontre, eis aí que aparece o Chega. Não se pode ser a favor e contra o Brexit, tal como Corbyn queria transparecer. Não se pode ser a favor e contra, ninguém vive no limbo.

Esta é a demonstração clara de que o que queremos são líderes convictos e genuínos. A falta de líderes europeus não é por acaso, o acaso é com as redes sociais, alguns acharem que podem ser o que não são na realidade. Nós sabemos!

Amigos, aproveito para desejar que este dia seja o primeiro das 366 oportunidades que teremos para mudar o Mundo para um lugar melhor, porque a mudança do Mundo começa dentro de nós, em primeiro lugar. É verdade, só podia acabar o artigo como comecei, com alguma demagogia, que contraria tudo o que escrevi e daquilo que não sou, um demagogo.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

O Natal da minha memória

O Natal é das melhores lembranças que tenho, enquanto criança. Lembro-me perfeitamente. Naquela altura, os meus pais e tias ofereciam sempre uma roupa nova e usava-a logo no dia 24 de dezembro, vestia a roupa, quase sempre acompanhada de umas botas e uma parca, eram as peças que mais me ficaram na memória. Saíamos de casa por volta das 20:30 ou 20:45, muitas vezes atrasados, pois a missa do Galo, na minha Paróquia, era às 21 horas, já que o Sr. Padre Sá tinha de celebrar missa às 00 horas na Igreja da Boa Nova.

Subíamos o caminho do meio, quase como alpinistas em competição, com as folhas ao largo da estrada a dançar, como querendo entrar dentro do íngreme caminho. Chegando ao Largo do Miranda, lá tocava a descer o caminho das voltas e, em passo apressado, rumo à Capela da Choupana. Já era difícil arranjar lugar sentado no salão para assistir ao Acto de Natal. Era um momento que me encantava, uma peça de teatro, sempre levada a rigor pelos paroquianos. Imaginava-me sempre há 2000 anos a assistir àquela cena do nascimento do menino Jesus. Seguidamente, subíamos um andar e íamos para a capela, ouvir as sábias palavras do Padre Sá. Confesso que só desejava ir para casa e dormir, aguardar que o Pai Natal chegasse… Até porque sabia que ele ia lá chegar. O meu professor da Primária, o Professor Firmino, dizia que tinha no terraço da sua casa uma armadilha para apanhar o Pai Natal, mas que ele tinha conseguido escapar, ano após ano… Ficava a imaginar, como é que era isso.

Noutro dia, saltava da cama e corria e corria… chegava ao pé do meu sapatinho e estavam lá tantos presentes… Há um que, particularmente, me marcou, foi uma camisola do Marítimo, com o número 9, era o número do Alex. Era o meu jogador preferido… Acho que ainda tenho essa camisola guardada e espero encontrá-la para transmiti-la ao meu filho.

Há quem diga que o Natal é das crianças, mas não está a ser exato. O Natal é de todos, não só na questão da reflexão, do recolhimento, no sentimento, na partilha, mas de todos aqueles que têm próximo de si as crianças. Hoje, o meu filho, com o tablet, através do Youtube, vê o Pai Natal, seja na Austrália, em calções, seja na Lapónia no seu tradicional fato. A sua felicidade em montar a árvore de Natal é tão grande, que nos aquece toda a casa. Imagino, como seria se ele visse aqueles milhares de árvores que ficavam à volta da casa da luz? Agora é uma mera amostra do que acontecia…

Hoje, o meu filho quer tirar fotos à árvore de Natal, ele já entende a importância do Menino Jesus, pois queria que ele estivesse por baixo da árvore. Ainda no outro dia, quando estava doente, tivemos de ir ao médico e perguntou logo à médica: “Onde está o menino Jesus?”, ela tinha-se esquecido do presépio, pois só havia Pais Natais e outros enfeites de Natal.

Ele, na verde maturidade dos seus 4 anos, passe o paradoxo, já diz coisas, que eu acho que nunca disse com aquela idade: “vamos ver as luzes de Natal”… O que seria que ele diria há 25 anos, quando as luzes brilhavam tanto como as estrelas?

A verdade é que o Natal, em cada época, em cada geração, faz-se essencialmente dentro de nós, nos pequenos momentos, nas pequenas memórias, nas prendas que pensámos que dificilmente nos vamos recordar e todas aquelas que nos lembramos, se calhar é aquela de que até o Pai Natal já se esqueceu.

Crescemos… O Natal parece começar a desaparecer para passar a ser algo mais interior, quando, de repente, o Natal volta a renascer seja com filhos, seja com netos… Seja na doce memória que há de prevalecer para sempre.

Publicado no JM-Madeira no Natal

BRINCAR CONTIGO


Voltei a brincar, despertei a criança que sempre existiu em mim e eu dizia nunca ter tempo para tal. Desde que o meu filho nasceu, como se diz, um fait divers que a vida muda drasticamente.

Não sei se foi para melhor ou para pior, a verdade é que me divirto de maneiras que já pensava esquecidas.

Quando ele diz: “papá, quero pintar na cara um dragão…” lá vou eu comprar as tintas faciais para a mãe pintar, pois ela é que tem a nota artística, ao mesmo tempo, eu também quero brincar e pinto de Joker… Aqui dá-se uma batalha de Nerfs pela corredora, pela sala e pelos vários quartos. Uma batalha em que vão pelo ar as balas de esponja e em que a gata se esconde para não apanhar com fogo cruzado. É claro que muitos vão dizer, mas brincas com “armas” em casa… Bem… É um pouco diferente, faz parte de melhorar a motricidade fina, mas também a coordenação motora de todos nós. Na verdade, é isso que fazemos.

Parte-se-me o coração quando o meu companheiro de lutas e brincadeiras fica com os olhos em baixo, e com alguma doença. Este fim-de-semana, apesar das inúmeras atividades que fizemos, ele estava doente, mas sempre que lhe dizia: “vamos brincar ao bingo” ou “vamos brincar às nerfs” ou “vamos brincar a qualquer coisa…” Ele arregalava os olhos e dizia: “vamos”, mas depois, rapidamente, emornecia com os doidóis na garganta, na barriga ou em outro lugar qualquer.

Confesso que, apesar de querer que ele fique sempre pequenino para poder brincar, abraçar, beijar, sem que ele fique envergonhado, que ele venha a correr para os meus braços, sem ficar embaraçado à frente dos amigos…, confesso que desejo que cresça para podermos começar a jogar Playstation juntos… Eu ganhar-lhe no FIFA… ‘Tá bem… Por vezes vou deixá-lo ganhar.

Voltando um pouco atrás, quando chego à creche, para o ir buscar, refira-se, porque, para o deixar é sempre um drama dele e da mãe. Mas pronto… Quando chego à creche e consigo ir a dentro buscá-lo, é uma felicidade enorme vê-lo a correr para abraçar as minhas pernas ou quando baixo o meu pescoço, é enorme o orgulho em ver-me olhando para os seus amiguinhos. Temos de sentir estes momentos, pois, no amanhã, ele já não fará nada disto e ficará envergonhado de abraçar-me, sobretudo naquela fase em que os filhos se afastam para crescer, até que, já crescidos, voltam de novo ao ninho paterno.

Tudo isto transporta-me para uma passagem de um livro de Tolentino Mendonça em que fala da figura do pai e diz: “Os estereótipos culturais, os resíduos de modelos autoritários, os tiques marialvas ou a timidez afastam os pais da palavra aberta e sentida, da confidência ou de expressões de afeto tão básicas como um abraço. A maior parte de nós não chega a dizer ao pai como o ama, nem a escutar da parte dele qualquer coisa semelhante.”

Eu espero ser diferente, enquanto pai, mas também um pouco como filho. Por isso, dizer que amo o meu filho, tal como amo o meu pai. Aproveite ao ler este artigo e tente ser esse filho, filha diferente a partir da nossa cultura!

Post Scriptum 1: Atenção, pedagogos, especialistas e afins… Em casa também dizemos que não a várias coisas, não é à vontade do menino ou, como diria a mãe, não é à vontade dos “meninos”.

Post Scriptum 2: Infelizmente, o Cardeal José Tolentino Mendonça não ganhou o Prémio Pessoa deste ano, no entanto, no próximo ano, o Movimento Madeira-Autonomia voltará a propô-lo.

Post Scrimptum 3: Aproveito para dar os parabéns ao Tiago Rodrigues por ter ganho o Prémio Pessoa.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

NATAL IS LOVE. E BARRACAS,

Chegamos ao Advento, época muito importante para todos os Cristãos. Uma época de paz, amor, essencialmente de renovação e limpeza espiritual.

Quando Maria e José se deslocaram a Belém, para o recenseamento, não conseguiram um quarto numa estalagem, tiveram de ficar numa gruta. Não encontraram lugar.

Nestes dias, os feirantes do Santo da Serra, tinham ficado sem lugar para fazer os seus negócios, pois a Câmara decidiu devolver os terrenos à Diocese. Felizmente, esta semana a Diocese e a recém-criada Associação conseguiram chegar a um acordo e voltará a feira. Os feirantes encontraram a sua estalagem, não foi preciso procurar uma qualquer gruta.

Finalmente, chegamos ao Funchal, num vai à frente, vai atrás, lá se decidiu o que se ia fazer na Placa Central. É o espírito de Natal, de paz, amor e harmonia. Antes foi necessário criar um massacre de inocentes, não o de Herodes, naquele tempo, mas de quem vive do seu esforço. Foi tudo mal gerido, seja pelo Governo, seja pela Câmara e quem ficou quase a perder foram os comerciantes, turistas e madeirenses. Pior ficaram os comerciantes, pois ficaram na incerteza e muitos deles já com encomendas e stock prontos para as barracas do Natal.

Gostei de ler os argumentos de parte a parte, não os vou rebater, mas devo dizer que ninguém ganhou, antes pelo contrário, ambos perderam. Uns as chaves da casa de banho, outros a compostura e ambos o norte. No fim a razão? Nenhum teve ou tem. Todavia, teremos as barraquinhas “desejadas” pelo Povo.

O nascimento de Jesus é uma época tão importante que nós, madeirenses, designamos como “A Festa”, não é uma festa qualquer, é simplesmente “A Festa”, nesta festa, quando se fala da nossa cultura escreve-se sobre a matança do porco, as missas do Parto, as luzes, a lapinha, a noite do Mercado, o “carrossel” no Almirante Reis, do Circo… E agora “a Placa Central”… De facto, os costumes e tradições, vão alargando, mas será que existia a necessidade desta discussão em público?

Os madeirenses e, neste caso particular, os funchalenses não querem saber de barracas, querem saber do que os políticos irão executar e realizar nos próximos tempos, isso sim, desejam ter um sapatinho mais recheado, desejam que, no próximo ano, existam os frutos na lapinha que há tantos anos ambicionam. Alguém acha que um turista vem da Alemanha, que tem mercados de Natal que são fora de série, à Madeira por causa de umas barracas? Alguém acha que, se não existissem as barracas, as pessoas não estariam felizes? As decorações adoçam-nos os olhos, mas a verdadeira iluminação do nosso coração e espírito é o nascimento de Jesus. Pensem nisto!

Agora que as barracas estão montadas, só nos resta dizer aquela tradicional expressão, que os madeirenses utilizavam, quando iam à casa dos vizinhos ou familiares nesta época: “E o Menino Jesus já faz xixi?”, isto é, tem um licor do natal nesta casa?

Post Scriptum 1: Será que, depois das declarações de um dirigente do Livre da Madeira, ups… do JPP, vão abrir um processo à Joacine? Ups… não é Joacine é ao deputado municipal do JPP que votou contra o Orçamento Municipal?

Post Scriptum 2: Ou será que o JPP fará um voto de louvor, por este ter ido contra a disciplina partidária, pois já aprovou o voto semelhante em Santa Cruz a um vereador da oposição. Qual será a coerência ou falta dela deste partido familiar? Claro que o JPP nada fará porque lhe falta moral, não foi ele criado na indisciplina partidária dos seus dirigentes no partido de origem, de que são “filhos”?

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

O AUTOPROCLAMADO PRESIDENTE QUE (NÃO) NOS GOVERNA

A moda dos autoproclamados veio para ficar. Esta moda, apesar de parecer recente, não é, já na nossa longínqua história temos verificado muitos autoproclamados. Mais longinquamente, o Mundo foi confrontado com o “Autoproclamado Estado Islâmico”.

Recentemente, tivemos o autoproclamado Presidente da Venezuela, depois tivemos a autoproclamada República da Catalunha, ainda agora temos a autoproclamada Presidente da Bolívia… E finalmente, chegamos à nossa ilha, que não podia ficar atrás e está sempre na vanguarda do desenvolvimento, temos o autoproclamado Presidente Paulo Cafôfo com um “autoproclamado programa de governo”.

Ora pergunta-me o leitor: – Mas então agora a Região Autónoma da Madeira tem dois Presidentes?!

– Caro leitor – respondo eu – é o que temos visto. Veja-se, a semana passada discutiu-se o Programa de Governo do PPD/PSD e do CDS e, ao mesmo tempo, o dono da gata Ofélia, isto é o Cafôfo apresentou o seu “programa de Governo”.

– Como é que isso é possível? – questiona, e bem, o excelentíssimo leitor.

– Só em “democracias” avançadas e evoluídas como na Venezuela e na Bolívia é que é possível. Isto, claro, para aqueles que assim as consideram.

Ora vamos analisar a grande maioria das propostas.

– Propostas, mas há propostas? – volta a retorquir o leitor.

– Caro leitor, meu amigo, claro que há… As principais propostas do autoproclamado programa de governo do dono da Ofélia são: Ferry o ano inteiro, Hospital Novo, uma solução para o aeroporto, um novo modelo de subsídio das viagens… estava tudo prontinho a servir, isto se ganhasse o partido do Chefe Costa, agora, não sei se vão fechar a cozinha!

– Mas isso é o programa de Governo do PPD – interrompe a minha escrita o leitor.

– Caro amigo, não estou a entender a sua dúvida! – exclamo eu.

– Ora, Eduardo, se o PSD e o CDS prometeram isso, eles também têm isso no programa…

– Ah… Já percebi a sua dúvida. A diferença aqui é nos protagonistas! Ora veja… O PS do Pereira, autoproclamado líder do PS que não queria que o PS do autoproclamado presidente independente ganhasse as eleições e fez tudo o que o PSD precisava para ganhar, pois as propostas de fundo eram as mesmas. Entende?!

– Isto é tudo muito confuso… O que interessa é quem é que paga a espetada e faz uma festa à grande! – exclamará o leitor.

– Com essa é que me lixou… Então, mas não quer saber das medidas do Autoproclamado Governo Independente Socialista?

– Desde que acabaram com a festa da liberdade e começaram a fazer aquela festa de queques na Praça Amarela que aquilo perdeu interesse. Veja, qualquer dia chega um qualquer e acaba com essa brincadeira. Já diz a nossa popular música: “deixa passar esta nossa brincadeira…”

– Olhe… – observo o texto a olhar para o portátil – se calhar tem razão. É melhor ficar assim. Ficamos com um Governo e um Autoproclamado Governo que dirá que fará mais força junto da República para conseguirmos a realização das pretensões da maioria dos madeirenses. Mas aí, o natural é que o Governo do Chefe Costa nos volte a servir o prato que já nos serviam no tempo do Estado Novo e chamar-nos-á ingratos pelo tanto que têm feito por nós. E nós acharmos que não temos de agradecer o que é de obrigação. Ou seja, guarda os tachos que estavam reservados à família e não há comida para ninguém!

Publicado no JM-Madeira - Siga Freitas

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

A HIPOCRISIA DE UM PAÍS

Portugal esta semana está no centro do Mundo ou melhor, Lisboa. Os políticos portugueses só se interessam por Lisboa. Qualquer outro tipo de evento que tenha alguma escala é roubado para Lisboa ou terá que ser em Lisboa! A razão? Simples para eles. É o único local com as condições para tal, no entanto obriga sempre todos os “contribuintes a contribuir” para a construção de mais qualquer coisinha, como é o exemplo das Jornadas Mundiais da Juventude em 2022.

Acabando com a história do centralismo, que todos já conhecemos existir. Vamos ao Websummit. Portugal volta a acolher o Web Summit, sendo a maior conferência da Europa de tecnologias e que se realiza anualmente desde 2009. Este ano tem a particularidade de “trazer” virtualmente Edward Snowden, que está asilado na Rússia. Edward Snowden denunciou, sacrificando a sua vida pessoal, os vários atentados à liberdade e privacidade que cada um de nós sofre às malhas do Governo Norte Americano, mas também das milhares e empresas web.

Na passada segunda-feira, ele voltou a referir que todos os dados que empresas como a Google, Facebook e etc… recolhem são para benefício delas e para usar em outros tantos dados. Tudo isto é certo, cada um de nós deverá ter a consciência que ao estarmos na web estamos a ser espionados e estamos a partilhar a nossa privacidade, se é que podemos chamar a isso privacidade.

Voltando a Portugal e a Edward Snowden, o que tem em comum? Nada, absolutamente nada, pois este mesmo Portugal que paga para ter a Web Summit e convidados como Edward Snowden a explanar sobre cybersegurança, mas também sendo o maior whistleblower, tem em cativeiro Rui Pinto.

Rui Pinto é um rapaz português que está preso há cerca de 6 meses e qual a razão? Por ter invadido sistemas informáticos e partilhando informações do desconhecimento geral, mas que se revelaram essenciais para várias entidades de países europeus recuperar impostos, que várias personalidades deste mundo continuam a fugir. Em Portugal, quando começou a ser revelado tais esquemas, a justiça conseguiu arranjar maneira de ir à Hungria e prender, sem nunca ter sequer querido recuperar cêntimo de impostos roubados ao Estado Português.

Este whistleblower não é totalmente inocente, mas fez o trabalho que as autoridades portuguesas deviam ter feito. Contudo, até hoje como se sabe todos estes assuntos de fuga aos impostos em nada interessam, até porque os Panama Papers estão esquecidos em uma qualquer gaveta.

Só quero demonstrar a hipocrisia de um país que se veste de gala para receber um whistleblower, mas que se esconde e mantém em cativeiro outro whistleblower.

Publicado no JM-Madeira no Siga Freitas

sábado, 2 de novembro de 2019

QUEM CONTA UM CONTO ACRESCENTA-LHE UM PONTO

Este conto não é meu, é um conto tradicional português e então, como todos os contos, começa assim: Era uma vez… Ou:

Havia um pescador que tinha uma mulher gulosa e má, além de preguiçosa. Não lhe fazia comida e ele, como não fora habituado, numa sociedade antiga e patriarcal, a cozinhar, só comia pão com azeitonas, Já para ela própria, fazia a mulher do pescador preparava bons petiscos e comia-os sozinha. Depois cantava uma canção: “Estende-te, perna,/Descansa corpinho,/Que lá anda no mar/Quem te há-de dar/Pão e vinho./Quando o pescador vier,/Coma azeitonas se houver.”

E assim era, quando o marido chegava a casa, só havia pão e azeitonas, em que ela dizia que já tinha comido. Ora… Lamentava-se todos os dias o pescador da sua pouca sorte. Ora… imaginem alguém que tem tudo e nada divide, nem se importava com quem dava o sustento da sua casa. Ele andava desconfiado que a sua mulher comia às escondidas. Um dia, ao ir para o mar, encontrou uma velhinha que lhe disse:

- Não te apoquentes mais que amanhã já comes melhor. Toma lá estas quatro bonecas e põe uma em cada canto da cozinha, mas que a tua mulher não veja.

Ele assim fez.

No dia seguinte, quando a mulher se preparava para comer os petiscos, ouviu:

- O que vai fazer aquela mulher? – interrogava a primeira boneca…

- Ora… vai comer!... – respondia a segunda boneca.

- Mas o marido não está em casa! – exclamava a terceira boneca.

- Bem se importa ela com o marido. É uma gulosa – sentenciava a quarta boneca.

A mulher, assustada, olhou e não viu ninguém. E volta a olhar para os petiscos e decide comer, mas ouve novamente a mesma conversa. Ficou cheia de medo e fugiu porta fora. Mas voltou a ficar com fome e regressou a casa e ouviu novamente as mesmas vozes. Então aguardou que o marido chegasse.

O pescador ficou admirado com a mudança. No dia seguinte, antes de sair para faina, a mulher diz-lhe:

- Olha, vem cedo que eu tenho cá um bom jantarinho.

Assim foi… Ela nunca mais comeu sem o marido. Tempos depois foi o pescador à procura da velhinha, que era uma fada, entregou-lhe as bonecas e agradeceu-lhe muito o que lhe tinha feito, pois agora já era feliz.

Felizes daqueles que, após avisos das bonecas ou bonecos, percebem que devem estar ao lado dos seus e não ao lado dos outros, pois sem os seus irá faltar a comida em casa. O mérito do trabalho deve ser recompensado, pelas esposas, por muito gulosas que sejam.

Um dia as bonecas podem perceber que não chega falar e aí buscar outra esposa para o velho pescador!

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

“APRENDO A CAIR E A PERGUNTAR”*


É um orgulho para qualquer português, em especial os madeirenses, ver Tolentino Mendonça nomeado Cardeal. Eu não o conheço pessoalmente, não me recordo de ter cruzado com ele em qualquer lugar, mas penso que todos nós o admiramos e sentimos que ele é parte de nós, madeirenses. Alguém que nos eleva, alguém que nos carrega nos seus ombros e, quem sabe, não fará um “forcing” por nós, junto de todas as santidades do Céu e da Terra.

Numa das muitas entrevistas da semana passada, houve várias declarações que me tocaram… Ele falou enquanto bibliotecário, em que dizia que passeava entre as estantes de livros, amava os livros como um jardineiro ama as rosas, e, enquanto passeava pelos jardins, amava as flores. As ideias são as dele, as palavras aqui escritas são a minha maneira de as traduzir.

A outra parte que me tocou foi quando respondeu como se sentia em relação ao novo cargo para o qual fora nomeado: “A vida vai-nos dando, pela mão de Deus, os caminhos, mais do que os pesos, porque a vida de um cardeal é pesada, mas a vida de um pai de família também é, a vida de um operário, a vida de um desempregado, a vida de um homem sobre a terra, a vida de um refugiado, a vida de alguém que constrói a sociedade”. Ou seja, na hermenêutica do texto que as suas palavras acabam por cerzir, cada um carrega a sua - Cruz.

Ele comparou a sua nova vida, não à de um homem importante, ou de um banqueiro, ou de um primeiro-ministro, presidente, ou rei, mas à suma importância da vida de cada homem, com o exemplo simples e solene, daqueles, os mais simples, que tocam a vida com as mãos calejadas e com o sentimento do coração esculpem a sua alma.

Estas palavras tornam-nos habitantes da Terra em igualdade cristã plena e todos conseguimos sentir o que sente o Cardeal Tolentino Mendonça. Mais e além disso - ele demonstra e bem o que sente um operário que labora as horas e constrói, com suor e lágrimas, a vida própria para que a vida de todos se dignifique: ainda que haja por salário um valor materialmente insustentável, comporta-se como o mais bem pago da sua empresa, porque executa, na perfeição possível, toda a obra-prima que sai desse labor, porque, ao menos, lhe foi dada a dignidade negada aos desempregados, Refugiados no seu próprio país, privados da pátria plena como todos os expatriados. Disse o Papa Francisco ao Cardeal que traz em si a Madeira em sua indumentária púrpura: “Tu és a poesia” – porque em Tolentino cada palavra se torna uma metáfora da Mensagem.