O Clube de Futebol União foi durante décadas, o segundo maior clube da Madeira. Nasceu de uma cisão ligada ao Marítimo, chegou à I Divisão e praticou várias modalidades. Foi dissolvido em 2021. Um clube não morreu no dia que acabou o futebol: perdeu primeiro as equipas «que não compensam». No fim, sobrou o futebol, que dizem sustentar tudo.
Não sou do União. Mas vi a subida à II Liga, o 1º jogo na Ribeira Brava e basquetebol feminino. Num quadro de recordes ainda consta o seu nome: Susana Gomes que nadou os 400 metros estilos em 1991 pelo clube. Acabou o clube; mas a marca ficou.
Falo dele porque o que está a acontecer no Marítimo devia assustar os sócios. Em 2025/26, a direção anunciou que não haveria equipa sénior de hóquei em patins por falta de jogadores. Como conseguiram outros clubes atrair atletas que o Marítimo não reteve? Que condições lhes ofereceram? Que fez a direção para os manter?
A direção garantiu que a formação continuaria para reconstruir o projeto. Falou-se no regresso dos seniores em 2026/27. A secção foi às escolas, captou atletas e ainda competiu regionalmente. Agora anuncia que não terá qualquer atividade em 2026/27. Parou também a formação. A promessa ficou por cumprir.
A secção diz que havia condições para continuar e que promessas feitas não foram cumpridas. Quem as fez? Quem as quebrou? O que sabia a direção e quando o soube? Com dirigentes destacados e responsáveis pelas modalidades, como se chegou aqui? Na SAD há administradores remunerados em exclusividade; nas modalidades, houve atletas e treinadores a dar horas ao clube quase de graça. Os sócios elegeram esta direção para governar o clube, não só o futebol. Que plano tem para devolver o hóquei aos rinques? Quanto financiamento se perdeu ao sair dos nacionais, e quem responde por isso? Publiquem os números, expliquem as decisões, assumam o fracasso.
O Marítimo era uma referência no hóquei, a modalidade coletiva em que Portugal somou mais títulos mundiais. Saía-se do futebol frustrados e os adeptos iam ver o Marítimo no rinque da Quinta Vigia. Deixar esta história terminar em silêncio é um falhanço de liderança.
Aos jogadores, na pessoa do capitão Pedro Moniz, o meu reconhecimento. Também ao treinador Jorge Silva, que sustentou a formação, e a Moreira, treinador da formação na última época. Estes treinadores não nasceram na Madeira nem cresceram maritimistas, mas deram mais ao clube do que muitos que batem no peito a preço de um destacamento. Mereciam uma homenagem pública. Nem isso tiveram.
O basquetebol desapareceu; a natação vai e vem; a patinagem de velocidade dá sinais de recuo. Fala-se agora do futuro incerto do voleibol. No futebol, acabou a equipa B e vieram os sub-23; o desinvestimento no futebol feminino, resultados à vista, a formação preocupa e vemos os resultados nas equipas e na fuga de jovens para outros clubes. Quantas reduções cabem no mesmo «projeto»? Com exceção do andebol, pois ainda é a herança do Madeira SAD.
A abertura da SAD a investidores foi apresentada como via para a sustentabilidade e só assim podiam subir à I Liga. O negócio não avançou e o Marítimo subiu à I Liga. Mérito de quem subiu e dos treinadores. A falta de investidores não pode servir de desculpa para cada recuo. Onde está o plano para o clube inteiro? Benfica, Sporting e FC Porto mostram que um clube também cresce pelas modalidades.
A direção poderá apontar que criou a esgrima, sabemos o motivo... desejo-lhe futuro. Quais os critérios para abrir essa secção enquanto se deixa fechar a história do Marítimo? Quem decide e que compromisso assume com cada modalidade?
Hoje é o hóquei; amanhã pode ser o voleibol ou a modalidade do seu filho. O Marítimo vive de atletas, treinadores e famílias que lhe entregam noites e fins de semana. Prometeram continuidade. Os sócios têm o direito de exigir responsabilidades. Se não as exigirmos agora, será num dia em que formos um União?
Artigo no JM-Madeira





