quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Isto não é contigo!

Fonte: https://encrypted-tbn2.gstatic.com/licensed-image?q=tbn:ANd9GcQqVysCRFWUFAwhuKIY0f3o5XGUx-NBeLFD1l376NyBj-U3PVpXpjvzb6yQZIkheD3TcUuhsmIiN9e1S5Q

Recentemente, vimos a comunicação social portuguesa tratar um episódio de racismo como se fosse apenas mais um lance polémico de um jogo de futebol, felizmente pudemos assistir à comunicação social internacional, longe deste clubismo saloio, falar do essencial. Discutiu-se o resultado, a tática, o árbitro. Falou-se menos do essencial: a dignidade humana. Como se um marcador pudesse ser mais importante do que um grito de ódio. Como se um ponto na tabela valesse mais do que a dor de alguém. Pior, alguém dizer algo como: “o nosso melhor jogador é preto”, semelhante ao “até temos um amigo”, concluindo, logo não se pode ser racista. Quanta provação teve de fazer esse jogador para mostrar que era melhor que o outro?

Mas a verdade — e custa dizê-lo — é que isto não é um caso isolado. É um espelho. Um espelho da nossa sociedade. Vivemos demasiado fechados no nosso pequeno mundo, no nosso clube, na nossa razão, na nossa narrativa. Olhamos para o nosso umbigo e esquecemo-nos de que o outro também sente, também sangra, também tem medo.

Pergunto: alguém aceita que o clubismo justifica o insulto? Que a forma como se festeja um golo legitima a humilhação? Que uma traição explica uma agressão? Que uma roupa explica uma violação? Que uma criança mal-comportada merece exclusão e não educação inclusiva? Que alguém “teve o que mereceu”? Estas frases repetem-se como ecos de uma idade das trevas que julgávamos ultrapassada — mas que, afinal, apenas mudou de cenário.

Quando um resultado desportivo, uma nota de exame ou uma avaliação valem mais do que a empatia, alguma coisa está profundamente errada. Quando a vitória é celebrada e a humilhação relativizada, significa que ainda não aprendemos o essencial: os valores não são negociáveis.

Quando Vinícius Júnior se levanta e diz “basta”, não está apenas a defender-se. Está a lembrar-nos que a civilização começa quando alguém recusa ser desumanizado. O combate ao racismo não é um gesto simbólico. É um teste à nossa maturidade coletiva.

E o racismo é apenas uma das faces da exclusão. Há outras, ainda mais silenciosas.

Quando uma criança surda se levanta na sala de aula para dizer “não entendi, mas quero entender”, ela não está a pedir privilégio — está a pedir inclusão.

Quando uma criança cega aprende a olhar o mundo através dos sons, está a ensinar-nos que existem outras formas de olhar.

Quando alguém numa cadeira de rodas insiste em circular num espaço que não foi pensado para ela, está a afirmar: “eu também pertenço aqui”.

Quando uma pessoa com doença mental enfrenta fantasmas invisíveis para nós, mas reais para ela, está a travar batalhas que muitos nunca teriam coragem de enfrentar.

Quando uma criança que “se porta mal” se levanta todos os dias, talvez esteja apenas a pedir aquilo que nem sempre sabemos dar: compreensão.

O nosso maior problema não é a diferença. É a incapacidade de calçar os sapatos do outro — ou, pelo menos, de caminhar um metro descalço na sua estrada. Não era connosco. Não era o nosso filho. Não era o nosso pai. Não era a nossa mãe.

Até ao dia em que o é.

Publicado no JM-Madeira

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A Felicidade na Constituição

https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Comportamento/noticia/2021/03/e-possivel-aprender-ser-feliz-sugere-estudo.html

🗳️ No debate das presidenciais, o candidato Manuel Vieira, naquela ironia que corrói a demagogia da promessa fácil, garantia a todos vinho canalizado, um Ferrari para cada português, a Vieiralândia entre outras propostas utópicas. Uma atitude que deixou no ar uma ideia inesperada: incluir na Constituição Portuguesa: a Felicidade, como se de um direito fundamental se tratasse.

⚖️ O Estado deve garantir a vida, a liberdade, a dignidade, a justiça, o acesso à saúde, à educação, ao trabalho, à habitação e outros. Mas, e a felicidade? A verdade é que, em qualquer pesquisa, é possível encontrar que vários países incluem o direito à felicidade na ordem jurídica interna.

🌏 O Butão assume na sua constituição a Felicidade Nacional Bruta (FNB) como um objetivo da Constituição, sendo a felicidade vista como um bem coletivo. O Nepal também reconhece o direito à felicidade. Já o Japão e a Coreia do Sul reconhecem o direito da busca pela felicidade. A Bolívia e o Equador consagram nas suas Constituições o “Vivir Bien” e o “Buen Vivir (Sumak Kawsay)”, respetivamente, pois tratam-se de saberes inspirados nos indígenas.

📜 Mas, se formos ainda mais atrás, aos Estados Unidos da América, os pais fundadores colocaram na Declaração da Independência o seguinte: “Life, Liberty and the pursuit of Happiness” – vida, liberdade e a busca da felicidade. Ou seja, tudo na organização da vida pública deveria contribuir para o bem-estar da Nação, a partir da dignidade de cada cidadão.

🇵🇹 Em Portugal, porém, existe o conceito entranhado culturalmente, mesmo que hoje já possa ser refletido ou até questionado. O “bom cidadão” português foi, durante muito tempo, associado a trabalho constante, sacrifício e pouca queixa. Descansar, parar ou abrandar quase soa a culpa. A questão é que é o Estado e o Governo que querem isso mesmo de todos os cidadãos. Até há aquele ditado: ‘O trabalho dignifica o homem”. O ócio, por seu lado, é aliado do diabo, logo a atividade é o caminho para o bem. Não é por acaso que Portugal surge, em 2025, em 60º lugar em 147 países no World Happiness Report, ocupando apenas o 22º lugar numa União Europeia a 27 Estados.

🎣 Lembremos parábola do homem rico que vê um pescador na sua faina tranquilamente à beira de um lago. E pergunta-lhe:

  • Porque não pescas mais horas? Podias ganhar mais dinheiro. - E este responde:

  • Para quê?

💼 Explica-lhe o rico:

  • Para comprares um barco maior, ganhares mais, investires, cresceres, ficares rico.

⏳ - E depois? – O rico retorqui:

  • Depois, quando fores velho, podes reformar-te, comprar uma casa à beira de um lago... e passar os teus últimos dias a pescar tranquilamente. – Sorrindo, o pescador, conclui:

🌊 - Mas é exatamente isso que eu já faço! Esta é a minha filosofia de vida. Até que ela chegue, tranquilamente, ao fim!

🌱 Colocar a felicidade nas Constituições é reconhecer que não compete ao Estado apenas administrar leis, mas criar condições para o “caminho para a felicidade” do seu povo. É reconhecer que há algo maior que um PIB, que o bem-estar não se mede apenas em números, mas também em confiança, tempo, dignidade e sentido.

✨ Reconhecer que a vida deve permitir a busca constante da felicidade, - quando se chega confiante a um centro de saúde, à escola, ao trabalho – não como exceção individual, mas como experiência coletiva. Talvez não se trate de prometer felicidade, mas de garantir que o nosso sistema de vida não a torne impossível e que garanta ainda que de forma implícita, o direito à Felicidade!


Publicado no JM-Madeira em Siga Freitas

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Bem-vindos à Madeira Luddite

 Vivemos tempos curiosos. Tempos em que a tecnologia avança a passos largos, mas há quem ainda queira travá-la. Entrámos num novo Período Luddite, versão 5G, e há quem insista em não querer ver a realidade, mesmo que ela venha com notificações.

Eu imaginaria no século XX alguns episódios recentes madeirense:

Tivemos boieiros, acredito que o meu bisavô inclusive já que ele teve um carro de bois, a protestar contra a entrada dos táxis no negócio dos passeios. Imagine-se! Concorrência! Acabe-se com os táxis. Já os táxis argumentavam: já viram os dejetos que os bois deixam pelo caminho?  Na altura não se falava da poluição dos carros a combustão, logo era um bom argumento. Mas os boieiros reclamavam: como é que se atre
vem a querer transportar turistas? 

Depois, claro, surgiram os míticos carreiros do Monte, a queixarem-se do teleférico. Não da subida, atenção, que essa até dá jeito — mas da descida. Porque aparentemente, a gravidade devia estar sob exclusividade contratual. Quem quiser descer do Monte devia ir de carro de cesto, ponto final. Como óbvio isto é tudo fantasia. 

Mas claro, isto tudo não acontece só cá. Esta resistência às mudanças é um clássico. O nome técnico? Luddismo. O nome do protagonista? Ned Ludd, um suposto operário inglês do século XIX que, ao ver uma máquina de costura a ameaçar o seu ganha-pão, partiu-a. Entre 1811 e 1816, o movimento Luddite virou moda: invadiam fábricas, destruíam teares, e juravam a pés juntos que a modernice ia destruir o mundo.

Soa familiar?

Hoje, os Luddites vestem fardas, gravata de gestor de fábrica têxtil, ou t-shirt de músico. Os táxis querem eliminar os TVDE; as fábricas querem proibir a Shein (porque o algodão não é só doce — também é vingativo); músicos tremem com a Inteligência Artificial, e já protestam contra a IA, e não é para menos: a banda Velvet Sundown, feita 100% por IA, já tem mais seguidores no Spotify do que a maioria dos humanos.

E não fica por aqui: a China já abriu o primeiro hospital operado por 14 médicos IA e 4 enfermeiros virtuais. O atendimento é rápido, eficiente e não se queixam das horas extraordinárias — nem pedem café.

Muitos querem destruir a automação como se ainda estivéssemos no século XIX. Mas más notícias, meus caros: as máquinas agora não se partem com marretas — têm firewalls. Se quiserem mesmo travar esta revolução, vão ter de se reinventar como hackers. E nem todos têm jeito para Matrix.

A dura verdade? Esta evolução é inevitável. Pode ser atrasada por legislação, regulamentos e uns quantos protestos com cartazes escritos à mão, mas é como tentar parar um tsunami com um balde de praia.

Todas as profissões — sim, todas — irão desaparecer ou adaptar-se. Sempre foi assim. Quem hoje tem saudades da datilógrafa? Ou do senhor dos videoclubes? Eu, nostálgico como sou, ainda sonho com o barulho da impressora de fax, mas até eu reconheço: o progresso não espera.


Aliás, digo aos meus amigos (os que ainda não foram substituídos por bots): o meu plano para a reforma é simples — poupar para um robô da Tesla que me leve ao médico, me traga sopa, e me diga “tudo vai correr bem, senhor Eduardo”, com voz de Siri carinhosa. Melhor do que um lar. Melhor do que filhos ocupados. E muito melhor do que um cuidador. Não será mais humano poder ficar em minha casa com as minhas coisas e ter quem me ajude 24 horas por dia? Só necessitando de ser carregado.

Sim, é difícil. Mas negar a mudança não vai impedi-la. A única coisa mais patética do que querer travar a tecnologia é sonhar que podemos transformar a Madeira numa espécie de ilha Amish. Seria, sem dúvida, inovador. A primeira ilha Amish do mundo, com bodes, cestos, pão de casa e… bom, nada de Netflix.

Mas convenhamos: até os Amish têm site.


Publicado no JM-Madeira


sábado, 19 de julho de 2025

Ele é que se pôs a jeito

Créditos da imagem: https://sicnoticias.pt/pais/2023-10-20-GNR-regista-140-crimes-de-bullying-e-cyberbullying-nas-escolas-em-2022-2023-54e47bed

Refletir sobre o que se fez ou não se fez - como seres humanos, filhos, pais. Fez-se tudo certo? É quase certo que não.

Diz-se que esta será a primeira geração, em 100 anos, mais pobre que os pais. Talvez. Mas o que preocupa é a outra pobreza: a de valores.

Sou millennial, geração Y - a última a crescer com amor e a respeitar quem mandava, certo ou errado.

Há algo que me indigna: o bullying.

Sim, sempre existiu. O “caixa de óculos”, o “gordo”, o “cenoura”, a “loira burra”.

Mas no nosso tempo, quando o agressor era apanhado - por pais ou professores - havia consequências.

Ui, ui... foge da frente!

A brincadeira acabava. Na minha extinta escola da Sé - hoje um AL instagramável - o Professor Firmino impunha respeito e proteção. Havia olhos atentos e quem agisse.

Hoje? Desacredita-se a vítima.

A palavra vale menos que um emoji no WhatsApp.

Denunciam? Ignora-se.

Falam? Distorce-se.

Choram? Dramatizam.

Grupo de Whatsapp? Tirado fora do contexto.

Isolam-nos do grupo? É um grupo privado de troca de livros, se calhar tipo Bilderberg.

Afinal, é só uma criança sensível, certo? Errado!

E o agressor? Tem desculpas para dar e vender.

É de uma família de bem - impossível.

É de uma família desestruturada - coitadinho.

Não sabe dar um pontapé numa bola - está frustrado.

Não sabe dançar - então desconta no próximo.

Não sabe fazer nada, mas é um mestre em lançar veneno - e ninguém quer ver isso.

Devia existir o “Manual das 1001 Desculpas para Não Confrontar um Agressor”.

E a vítima?

Isola-se, brinca sozinha, fala sozinha ou já nem fala.

Tentou falar? Disseram-lhe para não fazer disso um drama. Foi empurrada para o canto. A melhor: “Tu também fizeste por isso.”

Existem ainda os “vítimas-cúmplices” que dizem: “até gosto de ti, mas há quem não goste... logo, excluído.”

Ah, sim... há sempre a “intervenção” por um adulto “responsável”. Separaram-nos. Mas quem ficou sozinho? A vítima.

A instituição ligou aos pais do agressor? Para quê? Pode ter “nome” ou dar problemas. E o caso está arrumado: o pequeno está para ali num canto, calado, silenciado.

Até surgir a notícia:

“Criança suicidou-se”, lá vem o guião pronto:

“Nunca houve bullying.”

“Estaria sinalizado.”

Ou melhor, usam uma das frases do agressor: Ninguém gostava dele, ele ficava sempre sozinho, não sabemos bem a razão, devia ser dele.

“A culpa é da família - pais separados. Genética duvidosa, devia ser de outra cultura qualquer.”

Os outros pais - os que têm filhos envolvidos - lançam-se ao papel de figurantes arrependidos:

“Coitadinho, era tão calado... o meu filho era tão amigo dele.”

Pois. Tão amigo quanto um espinho é amigo da pele.

Mas se um dia - por obra do acaso - surgirem provas irrefutáveis: áudios, vídeos, mensagens, prints, testemunhos... não temam.

Sigam o exemplo dos pais do Fernando Valente:

Lixívia digital. Apaguem os áudios, apaguem as mensagens, formatem os telemóveis, deem banho ao histórico com lixívia. E digam de cara lavada:

“Nunca foi nossa culpa.”

“Fora do contexto.”

“É culpa da vítima.”

Sempre foi.

A receita está dada. Estas serão as respostas.

Na semana passada, vimos imagens de uma adolescente - monitora - a alegadamente agredir uma criança num ATL. Depois, vangloriou-se nas redes sociais das alegadas agressões. Não foi na China, foi aqui. Quantos casos assim nunca chegam a ser filmados?

Em Rabo de Peixe, nos Açores, vimos outras imagens perturbadoras: “situações isoladas”.

Não se esqueçam: A vítima é a culpada. A vítima isolou-se. A vítima não se integrou. A vítima pôs-se a jeito.

Ninguém está preparado para isto. Mas devíamos estar. Já era tempo.

Nesta Era, precisamos de parar, desacelerar e ajudar. Criar empatia com o outro é fundamental - não só para proteger as nossas crianças, mas para o bem da nossa sociedade.


Publicado no JM-Madeira - Siga Freitas

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Lá no sítio



Há muitos anos, numa campanha eleitoral para a Câmara Municipal de Lisboa, participei em algumas ações do então candidato, Santana Lopes, da coligação liderada pelo PSD. Lembro-me bem de uma apresentação em que ele falava, convicto, da importância de recuperar a vida social de bairro. Dizia que as pessoas deviam poder viver o seu dia a dia à porta de casa: levar os filhos à escola, ir às compras, à piscina, ao campo de futebol... tudo ali, sem precisar de grandes deslocações. Uma cidade grande, sim, mas com um coração de aldeia. Aliás, como acontecia, AAL, antes do AL, nos velhos bairros que tornaram famosa a Lisboa do fado com velhas tendinhas.

Ideal bonito. Foi concretizado?

Na pressa da modernidade, da mobilidade, do progresso... perdemo-nos?

Há muitos anos, numa campanha eleitoral para a Câmara Municipal de Lisboa, participei em algumas ações do então candidato, Santana Lopes, da coligação liderada pelo PSD. Lembro-me bem de uma apresentação em que ele falava, convicto, da importância de recuperar a vida social de bairro. Dizia que as pessoas deviam poder viver o seu dia a dia à porta de casa: levar os filhos à escola, ir às compras, à piscina, ao campo de futebol... tudo ali, sem precisar de grandes deslocações. Uma cidade grande, sim, mas com um coração de aldeia. Aliás, como acontecia, AAL, antes do AL, nos velhos bairros que tornaram famosa a Lisboa do fado com velhas tendinhas.

Ideal bonito. Foi concretizado?

Na pressa da modernidade, da mobilidade, do progresso... perdemo-nos?

Há muitos anos, numa campanha eleitoral para a Câmara Municipal de Lisboa, participei em algumas ações do então candidato, Santana Lopes, da coligação liderada pelo PSD. Lembro-me bem de uma apresentação em que ele falava, convicto, da importância de recuperar a vida social de bairro. Dizia que as pessoas deviam poder viver o seu dia a dia à porta de casa: levar os filhos à escola, ir às compras, à piscina, ao campo de futebol... tudo ali, sem precisar de grandes deslocações. Uma cidade grande, sim, mas com um coração de aldeia. Aliás, como acontecia, AAL, antes do AL, nos velhos bairros que tornaram famosa a Lisboa do fado com velhas tendinhas.

Ideal bonito. Foi concretizado?

Na pressa da modernidade, da mobilidade, do progresso... perdemo-nos?

Porque a verdade é esta: não precisamos de mais carros. Precisamos de mais vida.

Um sítio – seja na Madeira ou em qualquer lado – não é apenas um conjunto de ruas. É feito de histórias, de afetos, de pertença. O lugar onde se cresce, se ri, se sofre, se vive. Recuperar essa memória é urgente. Com eventos locais, associações, arquitetura que convida ao encontro, casas do povo, juntas de freguesia atentas.

Até a tecnologia pode ajudar nesse retorno do tempo antigo: com apps que promovam o consumo local, plataformas de partilha entre vizinhos, espaços de teletrabalho comunitários.

Deslocarmo-nos continua a ser importante. Explorar, conhecer, viajar... sim. Mas ficar horas no trânsito, enfiados no carro, engolidos pelo ruído e pelo cansaço, não é liberdade. É uma usurpação de tempo social e cultural, das manhãs com os filhos, as conversas no café da esquina, um simples pôr-do-sol no miradouro.

A vida de sítio não era uma coisa velha, nem apenas uma memória bonita. É um projeto para o futuro. Um futuro mais calmo, mais próximo, mais nosso, mais solidário.

E, talvez, ao reconstruirmos esse modelo, redescubramos uma verdade antiga: a melhor cidade não é a mais veloz e nos leva o tempo, mas a que nos devolve tempo para a viver.


Publicado no JM-Madeira


quinta-feira, 22 de maio de 2025

Heterónimos das redes sociais


Como era bom ter um perfil falso. Vá, admitamos: quem nunca teve um? Ou pelo menos nunca quis ter? Um cantinho anónimo para espreitar, comentar, provocar ou simplesmente existir sem ter de levar com o peso do nome próprio e da fotografia do batizado.

Lembram-se das aulas de Português? Aqueles dias em que nos tentavam impingir o Fernando Pessoa e os heterónimos? Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Bernardo Soares... e o próprio Pessoa, esse mestre do “sou muitos, mas sou eu”. Na altura parecia tortura. Mas afinal... era treino!

Treino para os dias de hoje, em que estamos todos nas redes sociais e ninguém é exatamente quem parece ser. Quem dizia que o que aprendíamos na escola não servia para nada... olha, aí está a prova de que serviu: estamos todos a viver como heterónimos nas redes sociais.

Como era bom ter um perfil falso. Vá, admitamos: quem nunca teve um? Ou pelo menos nunca quis ter? Um cantinho anónimo para espreitar, comentar, provocar ou simplesmente existir sem ter de levar com o peso do nome próprio e da fotografia do batizado.

Lembram-se das aulas de Português? Aqueles dias em que nos tentavam impingir o Fernando Pessoa e os heterónimos? Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Bernardo Soares... e o próprio Pessoa, esse mestre do “sou muitos, mas sou eu”. Na altura parecia tortura. Mas afinal... era treino!

Treino para os dias de hoje, em que estamos todos nas redes sociais e ninguém é exatamente quem parece ser. Quem dizia que o que aprendíamos na escola não servia para nada... olha, aí está a prova de que serviu: estamos todos a viver como heterónimos nas redes sociais.

Como era bom ter um perfil falso. Vá, admitamos: quem nunca teve um? Ou pelo menos nunca quis ter? Um cantinho anónimo para espreitar, comentar, provocar ou simplesmente existir sem ter de levar com o peso do nome próprio e da fotografia do batizado.

Lembram-se das aulas de Português? Aqueles dias em que nos tentavam impingir o Fernando Pessoa e os heterónimos? Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Bernardo Soares... e o próprio Pessoa, esse mestre do “sou muitos, mas sou eu”. Na altura parecia tortura. Mas afinal... era treino!

Treino para os dias de hoje, em que estamos todos nas redes sociais e ninguém é exatamente quem parece ser. Quem dizia que o que aprendíamos na escola não servia para nada... olha, aí está a prova de que serviu: estamos todos a viver como heterónimos nas redes sociais.

Chamem-lhe literatura digital, chamem-lhe esquizofrenia online, chamem-lhe segunda-feira nas redes ou até trabalho. Nós cá chamamos vida moderna. E a verdade é que o Fernando já andava lá... só não tinha o Facebook ou o Instagram, mas uma coisa é certa: “Tenho em mim todos os sonhos do mundo.”


JM-Madeira - Siga Freitas

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

As malas


Fonte da foto: https://www.jn.pt/5679193944/miguel-arruda-ataca-chega-como-me-antecipei-estao-doidos/


Esta semana fomos surpreendidos pelo alegado roubo de malas do deputado Miguel Arruda. Se até então era um deputado desconhecido, saltou para a ribalta e para as notícias, por alegadamente roubar malas nos aeroportos e depois alegadamente vender os seus conteúdos online numa conta da Vinted. A situação gerou uma enxurrada de críticas e especulações, mas, antes de apontarmos dedos ou ridicularizarmos, precisamos refletir sobre algo mais profundo: o que pode levar uma pessoa em posição de destaque a agir de forma aparentemente tão incoerente com os valores que deveria defender? Toda a história tem sinais humorísticos e memes fora de série.

O comportamento de Miguel Arruda pode não ser apenas fruto de impulsos ou má-fé, mas sim o reflexo de uma condição psicológica subjacente, caso tudo isto que se ouviu seja alegadamente real, isto só pode ser cleptomania.

Este é um transtorno caracterizado pela incapacidade de resistir ao impulso de furtar objetos, independentemente do seu valor ou utilidade. Diferente de um ato de má intenção, a cleptomania está profundamente ligada a questões emocionais, como ansiedade, tensão ou até mesmo depressão. A pessoa, muitas vezes, sente alívio momentâneo após o ato, seguido de uma onda de culpa e vergonha.

Outra possibilidade que merece atenção é a de Arruda sofrer de transtorno de acumulação compulsiva, onde a necessidade de possuir ou guardar objetos se torna incontrolável. Esse comportamento, embora incompreendido por muitos, é amplamente reconhecido como um transtorno mental que pode causar sofrimento significativo, tanto para quem o vive quanto para aqueles ao seu redor.

Mas tenho a certeza de que existirão médicos e psiquiatras para analisar e fazer um diagnóstico, se que seja necessário.

Olhando para além do escândalo, é fundamental que, como sociedade, mostremos empatia e busquemos entender as possíveis causas de comportamentos como este. Miguel Arruda não precisa apenas de críticas ou julgamentos; ele pode precisar de ajuda. Se realmente estiver a lidar com alguma desses condições, a nossa prioridade deveria ser uma maior consciencialização para as doenças mentais. Muitas vezes essas doenças são incompreendidas.

Errar é humano, e compreender as fragilidades que levam aos erros é o caminho para uma sociedade mais justa e solidária. Afinal, por trás do político existe uma pessoa, que, como todos nós, também carrega as suas lutas.

Atenção não quero desculpar ninguém, nem minimizar nada, porque só quem perde as malas num aeroporto sabe as dificuldades e o transtorno que causa, seja de regresso a casa, seja na ida para qualquer destino de férias ou em trabalho. Sem dúvida, perder uma mala no aeroporto é uma experiência frustrante e perturbadora. Quem passa por isso enfrenta transtornos, custos inesperados e um sentimento de violação pessoal que é legítimo e merece total solidariedade. No entanto, enquanto lidamos com as consequências para as vítimas, também devemos olhar para o outro lado da moeda: há pessoas que agem assim não por maldade, mas porque estão presas em lutas internas invisíveis, como um transtorno psicológico.


Siga Freitas - JM-Madeira