quarta-feira, 22 de abril de 2026

Abril ainda não chegou à Madeira


Eu nasci em liberdade. Cresci a ouvir falar da Europa, de direitos, de oportunidades. Sou dessa geração europeísta que nunca sentiu o peso de uma ditadura na pele — e talvez por isso tenha ainda mais dificuldade em perceber o que isso realmente foi. Mas sei isto: celebramos esta semana mais de 50 anos desde a Revolução dos Cravos, e esse não é apenas um número bonito para discursos. É uma responsabilidade.

Porque olhar para trás dói. E deve doer.

Recentemente li o O Diário de Anne Frank. E aquilo não é só um livro — é um murro no estômago. Uma família, fechada entre paredes, sem liberdade, a escrever com uma lucidez que envergonha muitos adultos de hoje. E enquanto lia, pensei: não precisamos de ir aos Países Baixos ocupado pelos nazis para encontrar histórias de vidas apertadas. Aqui, em Portugal, durante décadas, havia quem vivesse com “liberdade” no papel, mas com a cabeça e a dignidade aprisionadas. Havia quem crescesse em furnas, em barracas, sem água, sem luz, sem futuro — mas com um regime a dizer que estava tudo bem.

E na Madeira, então? Quantas histórias ficaram por contar? Quantos madeirenses tiveram de partir, empurrados pela pobreza, pela falta de oportunidades, por um país que lhes virava as costas?

Hoje fala-se de Abril como um feriado e uma dicotomia entre extrema-direita e extrema-esquerda. Evocam-se os “brandos costumes”, celebra-se a liberdade — e ainda bem. Porque Portugal mudou, e mudou muito. Passámos de um país com um quarto da população analfabeta para um país onde a educação chegou a quase todos. Criámos o Serviço Nacional de Saúde, aumentámos a esperança média de vida, reduzimos drasticamente a mortalidade infantil. Trouxemos luz, água e dignidade a sítios onde antes só havia abandono.

Mas não nos enganemos: Abril não foi feito para estatísticas e para guerras ideológicas. Foi feito para pessoas – para nós!

E por isso a pergunta impõe-se — quase como um grito: já cumprimos Abril?

Os Capitães de Abril não arriscaram tudo apenas para mudar um regime. Arriscaram para mudar um país. Queriam justiça, igualdade, dignidade. Queriam um Portugal onde o lugar onde se nasce não fosse uma sentença. Onde ninguém tivesse de emigrar por desespero. Onde a voz do povo não fosse um sussurro com medo.

Cinco décadas depois, temos liberdade. Mas será que temos igualdade? Temos democracia. Mas será que temos justiça para todos?

E aqui, deixem-me falar como madeirense.

A nossa Autonomia também faz 50 anos. Cinquenta anos de conquista, de afirmação, de voz própria. Pela primeira vez na nossa história, deixámos de ser apenas um ponto no mapa para sermos protagonistas do nosso destino. A Autonomia não é um capricho — é uma necessidade. É a resposta a séculos de distância, de esquecimento, de centralismo.

Mas hoje, essa mesma Autonomia é atacada. Há quem nos olhe como um fardo. Quem fale da Madeira como se fosse um peso morto. Quem use palavras como “subsídios” e “dependência” sem perceber a realidade de uma região ultraperiférica, arquipelágica, afastada do continente, mas profundamente portuguesa.

E então vale a pena perguntar, com frontalidade: quanto custa, afinal, a Autonomia?

A resposta pode surpreender muitos. A Autonomia é um investimento. Representa uma pequena fração do orçamento nacional, muito inferior ao impacto económico que a Madeira gera, seja através do turismo, da diáspora ou da sua posição estratégica no Atlântico. Cada euro investido na Madeira é devolvido em coesão, em presença territorial, em afirmação nacional.

O que custa, de verdade, é o desconhecimento. É o preconceito. É o centralismo de Lisboa, mesmo por aqueles que se encantam com a capital. É o facilitismo de quem nunca teve de viver numa ilha.

Abril deu-nos liberdade. A Autonomia deu-nos voz.

Mas nenhuma delas está garantida para sempre.

Abril não é um destino. É um caminho — feito de escolhas, de coragem, de memória. E talvez a pergunta mais honesta que podemos fazer, hoje, não seja se Abril está cumprido.

É se estamos à altura de Abril – ou se continuamos a permitir que o centralismo impeça que ele chegue à nossa Madeira.

Publicado no JM-Madeira

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Isto não é contigo!

Fonte: https://encrypted-tbn2.gstatic.com/licensed-image?q=tbn:ANd9GcQqVysCRFWUFAwhuKIY0f3o5XGUx-NBeLFD1l376NyBj-U3PVpXpjvzb6yQZIkheD3TcUuhsmIiN9e1S5Q

Recentemente, vimos a comunicação social portuguesa tratar um episódio de racismo como se fosse apenas mais um lance polémico de um jogo de futebol, felizmente pudemos assistir à comunicação social internacional, longe deste clubismo saloio, falar do essencial. Discutiu-se o resultado, a tática, o árbitro. Falou-se menos do essencial: a dignidade humana. Como se um marcador pudesse ser mais importante do que um grito de ódio. Como se um ponto na tabela valesse mais do que a dor de alguém. Pior, alguém dizer algo como: “o nosso melhor jogador é preto”, semelhante ao “até temos um amigo”, concluindo, logo não se pode ser racista. Quanta provação teve de fazer esse jogador para mostrar que era melhor que o outro?

Mas a verdade — e custa dizê-lo — é que isto não é um caso isolado. É um espelho. Um espelho da nossa sociedade. Vivemos demasiado fechados no nosso pequeno mundo, no nosso clube, na nossa razão, na nossa narrativa. Olhamos para o nosso umbigo e esquecemo-nos de que o outro também sente, também sangra, também tem medo.

Pergunto: alguém aceita que o clubismo justifica o insulto? Que a forma como se festeja um golo legitima a humilhação? Que uma traição explica uma agressão? Que uma roupa explica uma violação? Que uma criança mal-comportada merece exclusão e não educação inclusiva? Que alguém “teve o que mereceu”? Estas frases repetem-se como ecos de uma idade das trevas que julgávamos ultrapassada — mas que, afinal, apenas mudou de cenário.

Quando um resultado desportivo, uma nota de exame ou uma avaliação valem mais do que a empatia, alguma coisa está profundamente errada. Quando a vitória é celebrada e a humilhação relativizada, significa que ainda não aprendemos o essencial: os valores não são negociáveis.

Quando Vinícius Júnior se levanta e diz “basta”, não está apenas a defender-se. Está a lembrar-nos que a civilização começa quando alguém recusa ser desumanizado. O combate ao racismo não é um gesto simbólico. É um teste à nossa maturidade coletiva.

E o racismo é apenas uma das faces da exclusão. Há outras, ainda mais silenciosas.

Quando uma criança surda se levanta na sala de aula para dizer “não entendi, mas quero entender”, ela não está a pedir privilégio — está a pedir inclusão.

Quando uma criança cega aprende a olhar o mundo através dos sons, está a ensinar-nos que existem outras formas de olhar.

Quando alguém numa cadeira de rodas insiste em circular num espaço que não foi pensado para ela, está a afirmar: “eu também pertenço aqui”.

Quando uma pessoa com doença mental enfrenta fantasmas invisíveis para nós, mas reais para ela, está a travar batalhas que muitos nunca teriam coragem de enfrentar.

Quando uma criança que “se porta mal” se levanta todos os dias, talvez esteja apenas a pedir aquilo que nem sempre sabemos dar: compreensão.

O nosso maior problema não é a diferença. É a incapacidade de calçar os sapatos do outro — ou, pelo menos, de caminhar um metro descalço na sua estrada. Não era connosco. Não era o nosso filho. Não era o nosso pai. Não era a nossa mãe.

Até ao dia em que o é.

Publicado no JM-Madeira

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A Felicidade na Constituição

https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Comportamento/noticia/2021/03/e-possivel-aprender-ser-feliz-sugere-estudo.html

🗳️ No debate das presidenciais, o candidato Manuel Vieira, naquela ironia que corrói a demagogia da promessa fácil, garantia a todos vinho canalizado, um Ferrari para cada português, a Vieiralândia entre outras propostas utópicas. Uma atitude que deixou no ar uma ideia inesperada: incluir na Constituição Portuguesa: a Felicidade, como se de um direito fundamental se tratasse.

⚖️ O Estado deve garantir a vida, a liberdade, a dignidade, a justiça, o acesso à saúde, à educação, ao trabalho, à habitação e outros. Mas, e a felicidade? A verdade é que, em qualquer pesquisa, é possível encontrar que vários países incluem o direito à felicidade na ordem jurídica interna.

🌏 O Butão assume na sua constituição a Felicidade Nacional Bruta (FNB) como um objetivo da Constituição, sendo a felicidade vista como um bem coletivo. O Nepal também reconhece o direito à felicidade. Já o Japão e a Coreia do Sul reconhecem o direito da busca pela felicidade. A Bolívia e o Equador consagram nas suas Constituições o “Vivir Bien” e o “Buen Vivir (Sumak Kawsay)”, respetivamente, pois tratam-se de saberes inspirados nos indígenas.

📜 Mas, se formos ainda mais atrás, aos Estados Unidos da América, os pais fundadores colocaram na Declaração da Independência o seguinte: “Life, Liberty and the pursuit of Happiness” – vida, liberdade e a busca da felicidade. Ou seja, tudo na organização da vida pública deveria contribuir para o bem-estar da Nação, a partir da dignidade de cada cidadão.

🇵🇹 Em Portugal, porém, existe o conceito entranhado culturalmente, mesmo que hoje já possa ser refletido ou até questionado. O “bom cidadão” português foi, durante muito tempo, associado a trabalho constante, sacrifício e pouca queixa. Descansar, parar ou abrandar quase soa a culpa. A questão é que é o Estado e o Governo que querem isso mesmo de todos os cidadãos. Até há aquele ditado: ‘O trabalho dignifica o homem”. O ócio, por seu lado, é aliado do diabo, logo a atividade é o caminho para o bem. Não é por acaso que Portugal surge, em 2025, em 60º lugar em 147 países no World Happiness Report, ocupando apenas o 22º lugar numa União Europeia a 27 Estados.

🎣 Lembremos parábola do homem rico que vê um pescador na sua faina tranquilamente à beira de um lago. E pergunta-lhe:

  • Porque não pescas mais horas? Podias ganhar mais dinheiro. - E este responde:

  • Para quê?

💼 Explica-lhe o rico:

  • Para comprares um barco maior, ganhares mais, investires, cresceres, ficares rico.

⏳ - E depois? – O rico retorqui:

  • Depois, quando fores velho, podes reformar-te, comprar uma casa à beira de um lago... e passar os teus últimos dias a pescar tranquilamente. – Sorrindo, o pescador, conclui:

🌊 - Mas é exatamente isso que eu já faço! Esta é a minha filosofia de vida. Até que ela chegue, tranquilamente, ao fim!

🌱 Colocar a felicidade nas Constituições é reconhecer que não compete ao Estado apenas administrar leis, mas criar condições para o “caminho para a felicidade” do seu povo. É reconhecer que há algo maior que um PIB, que o bem-estar não se mede apenas em números, mas também em confiança, tempo, dignidade e sentido.

✨ Reconhecer que a vida deve permitir a busca constante da felicidade, - quando se chega confiante a um centro de saúde, à escola, ao trabalho – não como exceção individual, mas como experiência coletiva. Talvez não se trate de prometer felicidade, mas de garantir que o nosso sistema de vida não a torne impossível e que garanta ainda que de forma implícita, o direito à Felicidade!


Publicado no JM-Madeira em Siga Freitas

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Bem-vindos à Madeira Luddite

 Vivemos tempos curiosos. Tempos em que a tecnologia avança a passos largos, mas há quem ainda queira travá-la. Entrámos num novo Período Luddite, versão 5G, e há quem insista em não querer ver a realidade, mesmo que ela venha com notificações.

Eu imaginaria no século XX alguns episódios recentes madeirense:

Tivemos boieiros, acredito que o meu bisavô inclusive já que ele teve um carro de bois, a protestar contra a entrada dos táxis no negócio dos passeios. Imagine-se! Concorrência! Acabe-se com os táxis. Já os táxis argumentavam: já viram os dejetos que os bois deixam pelo caminho?  Na altura não se falava da poluição dos carros a combustão, logo era um bom argumento. Mas os boieiros reclamavam: como é que se atre
vem a querer transportar turistas? 

Depois, claro, surgiram os míticos carreiros do Monte, a queixarem-se do teleférico. Não da subida, atenção, que essa até dá jeito — mas da descida. Porque aparentemente, a gravidade devia estar sob exclusividade contratual. Quem quiser descer do Monte devia ir de carro de cesto, ponto final. Como óbvio isto é tudo fantasia. 

Mas claro, isto tudo não acontece só cá. Esta resistência às mudanças é um clássico. O nome técnico? Luddismo. O nome do protagonista? Ned Ludd, um suposto operário inglês do século XIX que, ao ver uma máquina de costura a ameaçar o seu ganha-pão, partiu-a. Entre 1811 e 1816, o movimento Luddite virou moda: invadiam fábricas, destruíam teares, e juravam a pés juntos que a modernice ia destruir o mundo.

Soa familiar?

Hoje, os Luddites vestem fardas, gravata de gestor de fábrica têxtil, ou t-shirt de músico. Os táxis querem eliminar os TVDE; as fábricas querem proibir a Shein (porque o algodão não é só doce — também é vingativo); músicos tremem com a Inteligência Artificial, e já protestam contra a IA, e não é para menos: a banda Velvet Sundown, feita 100% por IA, já tem mais seguidores no Spotify do que a maioria dos humanos.

E não fica por aqui: a China já abriu o primeiro hospital operado por 14 médicos IA e 4 enfermeiros virtuais. O atendimento é rápido, eficiente e não se queixam das horas extraordinárias — nem pedem café.

Muitos querem destruir a automação como se ainda estivéssemos no século XIX. Mas más notícias, meus caros: as máquinas agora não se partem com marretas — têm firewalls. Se quiserem mesmo travar esta revolução, vão ter de se reinventar como hackers. E nem todos têm jeito para Matrix.

A dura verdade? Esta evolução é inevitável. Pode ser atrasada por legislação, regulamentos e uns quantos protestos com cartazes escritos à mão, mas é como tentar parar um tsunami com um balde de praia.

Todas as profissões — sim, todas — irão desaparecer ou adaptar-se. Sempre foi assim. Quem hoje tem saudades da datilógrafa? Ou do senhor dos videoclubes? Eu, nostálgico como sou, ainda sonho com o barulho da impressora de fax, mas até eu reconheço: o progresso não espera.


Aliás, digo aos meus amigos (os que ainda não foram substituídos por bots): o meu plano para a reforma é simples — poupar para um robô da Tesla que me leve ao médico, me traga sopa, e me diga “tudo vai correr bem, senhor Eduardo”, com voz de Siri carinhosa. Melhor do que um lar. Melhor do que filhos ocupados. E muito melhor do que um cuidador. Não será mais humano poder ficar em minha casa com as minhas coisas e ter quem me ajude 24 horas por dia? Só necessitando de ser carregado.

Sim, é difícil. Mas negar a mudança não vai impedi-la. A única coisa mais patética do que querer travar a tecnologia é sonhar que podemos transformar a Madeira numa espécie de ilha Amish. Seria, sem dúvida, inovador. A primeira ilha Amish do mundo, com bodes, cestos, pão de casa e… bom, nada de Netflix.

Mas convenhamos: até os Amish têm site.


Publicado no JM-Madeira


sábado, 19 de julho de 2025

Ele é que se pôs a jeito

Créditos da imagem: https://sicnoticias.pt/pais/2023-10-20-GNR-regista-140-crimes-de-bullying-e-cyberbullying-nas-escolas-em-2022-2023-54e47bed

Refletir sobre o que se fez ou não se fez - como seres humanos, filhos, pais. Fez-se tudo certo? É quase certo que não.

Diz-se que esta será a primeira geração, em 100 anos, mais pobre que os pais. Talvez. Mas o que preocupa é a outra pobreza: a de valores.

Sou millennial, geração Y - a última a crescer com amor e a respeitar quem mandava, certo ou errado.

Há algo que me indigna: o bullying.

Sim, sempre existiu. O “caixa de óculos”, o “gordo”, o “cenoura”, a “loira burra”.

Mas no nosso tempo, quando o agressor era apanhado - por pais ou professores - havia consequências.

Ui, ui... foge da frente!

A brincadeira acabava. Na minha extinta escola da Sé - hoje um AL instagramável - o Professor Firmino impunha respeito e proteção. Havia olhos atentos e quem agisse.

Hoje? Desacredita-se a vítima.

A palavra vale menos que um emoji no WhatsApp.

Denunciam? Ignora-se.

Falam? Distorce-se.

Choram? Dramatizam.

Grupo de Whatsapp? Tirado fora do contexto.

Isolam-nos do grupo? É um grupo privado de troca de livros, se calhar tipo Bilderberg.

Afinal, é só uma criança sensível, certo? Errado!

E o agressor? Tem desculpas para dar e vender.

É de uma família de bem - impossível.

É de uma família desestruturada - coitadinho.

Não sabe dar um pontapé numa bola - está frustrado.

Não sabe dançar - então desconta no próximo.

Não sabe fazer nada, mas é um mestre em lançar veneno - e ninguém quer ver isso.

Devia existir o “Manual das 1001 Desculpas para Não Confrontar um Agressor”.

E a vítima?

Isola-se, brinca sozinha, fala sozinha ou já nem fala.

Tentou falar? Disseram-lhe para não fazer disso um drama. Foi empurrada para o canto. A melhor: “Tu também fizeste por isso.”

Existem ainda os “vítimas-cúmplices” que dizem: “até gosto de ti, mas há quem não goste... logo, excluído.”

Ah, sim... há sempre a “intervenção” por um adulto “responsável”. Separaram-nos. Mas quem ficou sozinho? A vítima.

A instituição ligou aos pais do agressor? Para quê? Pode ter “nome” ou dar problemas. E o caso está arrumado: o pequeno está para ali num canto, calado, silenciado.

Até surgir a notícia:

“Criança suicidou-se”, lá vem o guião pronto:

“Nunca houve bullying.”

“Estaria sinalizado.”

Ou melhor, usam uma das frases do agressor: Ninguém gostava dele, ele ficava sempre sozinho, não sabemos bem a razão, devia ser dele.

“A culpa é da família - pais separados. Genética duvidosa, devia ser de outra cultura qualquer.”

Os outros pais - os que têm filhos envolvidos - lançam-se ao papel de figurantes arrependidos:

“Coitadinho, era tão calado... o meu filho era tão amigo dele.”

Pois. Tão amigo quanto um espinho é amigo da pele.

Mas se um dia - por obra do acaso - surgirem provas irrefutáveis: áudios, vídeos, mensagens, prints, testemunhos... não temam.

Sigam o exemplo dos pais do Fernando Valente:

Lixívia digital. Apaguem os áudios, apaguem as mensagens, formatem os telemóveis, deem banho ao histórico com lixívia. E digam de cara lavada:

“Nunca foi nossa culpa.”

“Fora do contexto.”

“É culpa da vítima.”

Sempre foi.

A receita está dada. Estas serão as respostas.

Na semana passada, vimos imagens de uma adolescente - monitora - a alegadamente agredir uma criança num ATL. Depois, vangloriou-se nas redes sociais das alegadas agressões. Não foi na China, foi aqui. Quantos casos assim nunca chegam a ser filmados?

Em Rabo de Peixe, nos Açores, vimos outras imagens perturbadoras: “situações isoladas”.

Não se esqueçam: A vítima é a culpada. A vítima isolou-se. A vítima não se integrou. A vítima pôs-se a jeito.

Ninguém está preparado para isto. Mas devíamos estar. Já era tempo.

Nesta Era, precisamos de parar, desacelerar e ajudar. Criar empatia com o outro é fundamental - não só para proteger as nossas crianças, mas para o bem da nossa sociedade.


Publicado no JM-Madeira - Siga Freitas

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Lá no sítio



Há muitos anos, numa campanha eleitoral para a Câmara Municipal de Lisboa, participei em algumas ações do então candidato, Santana Lopes, da coligação liderada pelo PSD. Lembro-me bem de uma apresentação em que ele falava, convicto, da importância de recuperar a vida social de bairro. Dizia que as pessoas deviam poder viver o seu dia a dia à porta de casa: levar os filhos à escola, ir às compras, à piscina, ao campo de futebol... tudo ali, sem precisar de grandes deslocações. Uma cidade grande, sim, mas com um coração de aldeia. Aliás, como acontecia, AAL, antes do AL, nos velhos bairros que tornaram famosa a Lisboa do fado com velhas tendinhas.

Ideal bonito. Foi concretizado?

Na pressa da modernidade, da mobilidade, do progresso... perdemo-nos?

Há muitos anos, numa campanha eleitoral para a Câmara Municipal de Lisboa, participei em algumas ações do então candidato, Santana Lopes, da coligação liderada pelo PSD. Lembro-me bem de uma apresentação em que ele falava, convicto, da importância de recuperar a vida social de bairro. Dizia que as pessoas deviam poder viver o seu dia a dia à porta de casa: levar os filhos à escola, ir às compras, à piscina, ao campo de futebol... tudo ali, sem precisar de grandes deslocações. Uma cidade grande, sim, mas com um coração de aldeia. Aliás, como acontecia, AAL, antes do AL, nos velhos bairros que tornaram famosa a Lisboa do fado com velhas tendinhas.

Ideal bonito. Foi concretizado?

Na pressa da modernidade, da mobilidade, do progresso... perdemo-nos?

Há muitos anos, numa campanha eleitoral para a Câmara Municipal de Lisboa, participei em algumas ações do então candidato, Santana Lopes, da coligação liderada pelo PSD. Lembro-me bem de uma apresentação em que ele falava, convicto, da importância de recuperar a vida social de bairro. Dizia que as pessoas deviam poder viver o seu dia a dia à porta de casa: levar os filhos à escola, ir às compras, à piscina, ao campo de futebol... tudo ali, sem precisar de grandes deslocações. Uma cidade grande, sim, mas com um coração de aldeia. Aliás, como acontecia, AAL, antes do AL, nos velhos bairros que tornaram famosa a Lisboa do fado com velhas tendinhas.

Ideal bonito. Foi concretizado?

Na pressa da modernidade, da mobilidade, do progresso... perdemo-nos?

Porque a verdade é esta: não precisamos de mais carros. Precisamos de mais vida.

Um sítio – seja na Madeira ou em qualquer lado – não é apenas um conjunto de ruas. É feito de histórias, de afetos, de pertença. O lugar onde se cresce, se ri, se sofre, se vive. Recuperar essa memória é urgente. Com eventos locais, associações, arquitetura que convida ao encontro, casas do povo, juntas de freguesia atentas.

Até a tecnologia pode ajudar nesse retorno do tempo antigo: com apps que promovam o consumo local, plataformas de partilha entre vizinhos, espaços de teletrabalho comunitários.

Deslocarmo-nos continua a ser importante. Explorar, conhecer, viajar... sim. Mas ficar horas no trânsito, enfiados no carro, engolidos pelo ruído e pelo cansaço, não é liberdade. É uma usurpação de tempo social e cultural, das manhãs com os filhos, as conversas no café da esquina, um simples pôr-do-sol no miradouro.

A vida de sítio não era uma coisa velha, nem apenas uma memória bonita. É um projeto para o futuro. Um futuro mais calmo, mais próximo, mais nosso, mais solidário.

E, talvez, ao reconstruirmos esse modelo, redescubramos uma verdade antiga: a melhor cidade não é a mais veloz e nos leva o tempo, mas a que nos devolve tempo para a viver.


Publicado no JM-Madeira


quinta-feira, 22 de maio de 2025

Heterónimos das redes sociais


Como era bom ter um perfil falso. Vá, admitamos: quem nunca teve um? Ou pelo menos nunca quis ter? Um cantinho anónimo para espreitar, comentar, provocar ou simplesmente existir sem ter de levar com o peso do nome próprio e da fotografia do batizado.

Lembram-se das aulas de Português? Aqueles dias em que nos tentavam impingir o Fernando Pessoa e os heterónimos? Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Bernardo Soares... e o próprio Pessoa, esse mestre do “sou muitos, mas sou eu”. Na altura parecia tortura. Mas afinal... era treino!

Treino para os dias de hoje, em que estamos todos nas redes sociais e ninguém é exatamente quem parece ser. Quem dizia que o que aprendíamos na escola não servia para nada... olha, aí está a prova de que serviu: estamos todos a viver como heterónimos nas redes sociais.

Como era bom ter um perfil falso. Vá, admitamos: quem nunca teve um? Ou pelo menos nunca quis ter? Um cantinho anónimo para espreitar, comentar, provocar ou simplesmente existir sem ter de levar com o peso do nome próprio e da fotografia do batizado.

Lembram-se das aulas de Português? Aqueles dias em que nos tentavam impingir o Fernando Pessoa e os heterónimos? Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Bernardo Soares... e o próprio Pessoa, esse mestre do “sou muitos, mas sou eu”. Na altura parecia tortura. Mas afinal... era treino!

Treino para os dias de hoje, em que estamos todos nas redes sociais e ninguém é exatamente quem parece ser. Quem dizia que o que aprendíamos na escola não servia para nada... olha, aí está a prova de que serviu: estamos todos a viver como heterónimos nas redes sociais.

Como era bom ter um perfil falso. Vá, admitamos: quem nunca teve um? Ou pelo menos nunca quis ter? Um cantinho anónimo para espreitar, comentar, provocar ou simplesmente existir sem ter de levar com o peso do nome próprio e da fotografia do batizado.

Lembram-se das aulas de Português? Aqueles dias em que nos tentavam impingir o Fernando Pessoa e os heterónimos? Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Bernardo Soares... e o próprio Pessoa, esse mestre do “sou muitos, mas sou eu”. Na altura parecia tortura. Mas afinal... era treino!

Treino para os dias de hoje, em que estamos todos nas redes sociais e ninguém é exatamente quem parece ser. Quem dizia que o que aprendíamos na escola não servia para nada... olha, aí está a prova de que serviu: estamos todos a viver como heterónimos nas redes sociais.

Chamem-lhe literatura digital, chamem-lhe esquizofrenia online, chamem-lhe segunda-feira nas redes ou até trabalho. Nós cá chamamos vida moderna. E a verdade é que o Fernando já andava lá... só não tinha o Facebook ou o Instagram, mas uma coisa é certa: “Tenho em mim todos os sonhos do mundo.”


JM-Madeira - Siga Freitas