quarta-feira, 27 de maio de 2020

SUPERPODER DE CONTRIBUINTE!


Noutro dia estava a rever o filme a Liga da Justiça, confesso que sou fã de todos os super-heróis, sejam eles da DC, sejam da Marvel. Neste caso há um diálogo entre o Batman e o Flash em que o Flash, a certo momento, pergunta ao Bruce Wayne (o Batman):

– E tu, qual é o teu superpoder?

– Sou rico… – esta é a resposta do Batman, pois, na verdade, ele não tem nenhum poder, simplesmente tem muito dinheiro e consegue ter todo e mais algum equipamento para atingir os seus objetivos.

Como no Mundo, que eu saiba, não existem superpoderes, os ricos devem ser os heróis das nossas sociedades, podem, por vezes, não combater o crime, tal como faz o Batman. Mas podem fazer filantropia.

Tal como faz o Bill Gates, que criou programas de vacinação mundial, e que financia projetos para encontrar curas para as mais diversas doenças, nomeadamente o corona vírus.

Quando se exige, diariamente, que todos sejamos heróis, isso não passa de uma falácia, porque não possuímos um superpoder e a grande maioria não é rica.

Por exemplo, veja-se o caso do nosso país, verifica-se que, neste momento, quem passa por novas e grandes dificuldades não são os muito pobres, estes, infelizmente, passam pelas dificuldades de sempre, nem os muito ricos. Quem passa a maioria das dificuldades, algumas delas acrescidas, é a classe média.

Os muito pobres já o eram antes da crise, alguns têm acessos, e bem, refira-se, a habitação social, rendimento de inserção social, cheques de alimentação e etc… Os progressos que se fez na segurança social é um verdadeiro sucesso e isto cria, diariamente, a possibilidade de milhares de pessoas sobreviverem no nosso país.

Já os ricos, pouco ou nada tenho a referir, alguns podem ter tido uma quebra nos seus rendimentos, mas não deixarão de ser ricos, outros até viram aumentar os seus rendimentos, porque, numa crise, há sempre novas oportunidades de negócios para alguns setores.

Já a classe média, com esta crise, clama por heróis… Alguns entraram em lay off, logo tiveram uma redução drástica nos seus rendimentos, outros perderam complemente os seus rendimentos, aqueles pequenos empresários, logo deixaram de poder cumprir as suas obrigações estatais com os respetivos impostos, mas, mais grave que isso, alguns deixaram de poder cumprir as suas obrigações familiares.

A classe média, que é a força do trabalho para os ricos é quem mais contribui para o estado social e neste momento está a necessitar de ajuda e as dificuldades aumentaram diariamente até se dar uma recuperação económica completa, até se controlar ou soubermos viver com este vírus. Outro exemplo claro e que aparece como escandaloso nestes tempos de crise pandémica é pensar como é que é possível o Estado continuar a não deixar que os bancos possam falir como todas as outras empresas. Separou-se o BES bom do BES mau, o mau ficava com as dívidas e ia enterrar-se milhares de milhões de euros num buraco negro. Já no BES bom ia ficar o filé mignon, dizia-se. Mas é este banco bom que se tornou um sorvedor sem de fundos públicos. Como é que podemos explicar a esta classe média que se vai enterrar mais de 700 milhões, outra vez, no BES ou no Novo Banco, mesmo sob a forma de empréstimos. Depois como é que se explica que este mesmo banco queira pagar prémios aos gestores, num valor que é o dobro de um concorrente. Alguém consegue entender?

Depois temos outro exemplo, que é a TAP, que foi privatizada, que foi “nacionalizada” em 50%, que foi não sei o quê muito bem. Dizem ou escreveram que a privatização permitia renovar a frota e mais não sei quantas coisas… Mas, agora que voltou a ter uma espécie nacionalizada, a mesma TAP, após uma injeção de dinheiro, necessita de mais 350 milhões dos contribuintes. E quem vai pagar? Os ricos que compraram a TAP, não; os pobres também não. Será outra vez a classe média. A TAP não faz serviço público, logo deixe-se privatizar de vez e nas linhas necessárias faça-se concursos sérios. Repare-se que o serviço público para o Porto Santo, nem é a TAP a fazer, mas um privado espanhol.

Enfim…

Voltando ao filme… Penso que, se o Flash perguntasse a mim qual é o teu superpoder?

Eu responderia: Sou um contribuinte Português da dita classe média!!!.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

E ENTÃO MATAREMOS A SAUDADE!

Nestes tempos de confinamento, o meu filho não sai de casa desde o dia em que o Governo decretou o fim das escolas, com três exceções.

Uma das vezes, tivemos de sair por uma ida ao médico e passámos pela creche, pois ele tinha muitas saudades da mesma. Ao passarmos estava lá a diretora a zelar pela mesma, para que um dia tudo reabra. Ele ficou muito feliz, o brilho nos olhos ao ver a escola, ao ver a Diretora, ao ver que um dia voltará à escola, o lugar onde estão os amigos e as suas educadoras deixou-o radiante.

Felizmente, nós temos um logrador e brincamos, corremos, fazemos exercícios, brincamos à bola… ou, simplesmente, ficamos a olhar o céu… E, parafraseando a canção, não deveremos ser os únicos a fazê-lo, a olhar o céu! Neste sábado, usamos uma das exceções do Estado de Emergência: “i) Em deslocações de curta duração, para efeitos de fruição de momentos ao ar livre;” e demos a volta ao quarteirão e, ao passarmos numa rua, soprou uma leve brisa ao que ele me exclama: “Gosto tanto deste frio, papá!…”

A vida é complexa, é certo, o vírus tem sido péssimo para todos, mas momentos como a brisa a beijar-nos o rosto, até quando pudermos voltar a sentir o cheiro do mar, o aroma silvestre da floresta das nossas serras, vermos o verde, até andarmos no carro para ir visitar os avós, podermos dar um abraço àqueles de que mais gostamos será algo tão… como é mesmo a palavra?

Saudade, será essa?

O meu filho, com os seus 4 anos, como qualquer lusofalante, tem um sentimento que não consegue compreender, o mesmo sentimento e que nós temos e compreendemos e entendemos o que ele não entende ainda, e, todavia, sente já!

Ele sabe que existe uma doença na rua, sabe que quem não usa máscara e luvas são as “pessoas más”. Sabe que o pai, por força da profissão, tem que ir trabalhar por todos e para todos, mas não sou o único, são muitos aqueles que o fazem. Ele sabe que a doença só passará se ficarmos em casa e, após isso, voltar a estar com os seus amigos, por quem sente aquele sentimento que não sabe explicar: saudade.

De facto, só nós portugueses, com o nosso fado, melhor do que qualquer outro povo, conseguimos entender o que se vive… É uma saudade pelo que se viveu, uma saudade por aquilo que se gostava de viver. É na verdade a saudade que se sente! E de nós, essa melancolia ficou na língua portuguesa e de que todos os que a falam.

Para matarmos, não só este bicho, mas a saudade, temos que manter-nos confinados em casa, usar máscaras, usar luvas… Se todos cumprirmos, tenho a certeza que mais cedo do que esperado controlaremos o bicho e saciaremos a saudade.

Sim, tu estarás, nós estaremos, de novo, todos juntos!

quarta-feira, 8 de abril de 2020

NAQUELE TEMPO DA MULHER CONFINADA AO LAR

Nesta quarentena ou confinamento, apercebi-me de que a minha avó sempre viveu em quarentena, confinado ao espaço do lar. Ora vejamos… A minha avó raramente vinha à cidade, sim, porque antigamente a Choupana não era a cidade, a cidade era só a partir do Campo da Barca para baixo.

Ora vou explicar-lhes como era a quarentena da minha avó. Ela bordava, limpava a casa, fazia as respetivas refeições, engomava, lavava a roupa, não havia, nem em projeto, máquina de lavar roupa, metia a roupa no estendal e cuidava dos filhos e, posteriormente, de mim. À tarde, ouvia na telefonia a música pedida e havia, diariamente, a música do carro preto ou das 24 rosas, são músicas de que nunca me vou esquecer.

A quarentena era mais ou menos quebrada quando falava com as irmãs ou os vizinhos, uma bilhardice na beira do terreiro, mas, muitas vezes, era dentro do próprio quintal, junto à casa, logo havia a distância de segurança. Mas mesmo essas vizinhas e irmãs também viviam na quarentena do que então se dizia, na escola, mãe, doméstica.

A vida que a minha avó levava era de uma quarentena permanente, era impossível haver qualquer vírus. As compras eram feitas na venda abaixo de casa, a que mandava algum dos filhos ir comprar, com tudo escrito ou no vale ou no rol, ou trazia o Sr. Gilberto, uma espécie de Glovo da época, na sua cesta a subir o caminho do Meio, muito íngreme.

Ela só vinha à cidade, em situações inadiáveis, como fazer o Bilhete de Identidade, tratar de algum assunto na Caixa, nome abreviado da Previdência, ou ir a uma consulta.

Já o meu avô trabalhava numa serragem e, obrigatoriamente, tinha de vir para a cidade, mas, quando chegava a casa, vestia a roupa de casa e ia para a fazenda, cavar, semear, plantar ou fazer o que quer que fosse. Até regar, apesar dessa rega ser, muitas vezes, de madrugada, pois era quando “tinha” a água.

Na altura, não existiam redes sociais, só tínhamos uma televisão e imaginem só, só dava RTP-Madeira. Já no sou tempo em só havia a TVE, via Canárias. Isto sim, era viver em isolamento e era um isolamento, não obrigatório, mas necessário.

Não via ninguém se queixar. Era assim a vida da mulher confinada ao lar.

Post Scriptum: felizmente que esse isolamento acabou. Mas hoje, respeitemos a quarentena para o bem de todos.

quarta-feira, 25 de março de 2020

BEM HAJA, GENTE DA SAÚDE!

Raramente, ou melhor, nunca escrevi um artigo sobre a área em que trabalho, contudo vivemos uma época extraordinária, como tal este artigo quebra essa regra de autorregulação porque, vivemos tempos de exceção que requerem medidas de exceção.

Nestas semanas, infelizmente, vivemos um tempo inaudito com o covid-19. Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar o trabalho fantástico dos médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica, técnicos superiores de saúde, assistentes operacionais, farmacêuticos, padeiros, funcionários dos supermercados e etc… Contudo, há uns que são esquecidos, ou melhor ninguém sequer imagina que eles existem.

Assim, gostaria de fazer minha homenagem a todos aqueles que trabalham para que a base e a sustentação da saúde exista e funcione. Para todos nós é claro que um serviço de saúde nunca funcionaria sem médicos, sem enfermeiros…

Mas será que funcionaria sem os fogueiros? Sem os fogueiros não haveria água quente no Hospital, não haveria vapor para os equipamentos de esterilização.

Será que funcionaria sem os eletricistas? Havia quem perguntasse, a razão de existir eletricistas a noite toda no hospital, alguém já pensou o que aconteceria ao Hospital se faltasse a luz, os equipamentos de cuidados de intensivos, o dito: “ligar às máquinas” claudicaria em poucos minutos, pois só o eletricista pode colocar os geradores a funcionar.

E os técnicos de electromedicina? Quando um equipamento avaria, sim, são máquinas que, na sua maioria, funcionam 24 horas sob 24 horas e é normal avariar, mas os técnicos estão lá assegurar a reparação desde um simples aparelho de tensão, à TAC, aos parâmetros da água da diálise, entre outros. E os mecânicos, que garantem; a temperatura ideal dos frigoríficos, onde estão medicamentos e vacinas de tão de alto valor, vitais para a vida, passe a redundância; as máquinas de esterilização, que garantem o material para fazer diversas cirurgias, e os ar condicionados de todos os serviços.

E os canalizadores? Sim… É verdade o Hospital também tem canalizadores, não é preciso explicar a razão. Os pedreiros, necessários à manutenção e reparações de conservação.

Os carpinteiros, que reparam as portas, as mesas, cadeiras; os serralheiros, para reparar os carros, aqueles que levam o material para de recolha de sangue ou fazer uma simples rampa, ou um simples varandim de apoio, reparar ferros e outras peças tão especificas.

Os informáticos, fulcrais num mundo digitalizado, asseguram a consulta de um médico ao processo de um doente, a receita para a farmácia. E no apoio de todos estes setores há uma equipa de administrativos que trata das compras do material necessário a que tudo funcione, inclusive o serviço de saúde.

Mas não são eles os únicos invisíveis fundamentais para o mesmo serviço de saúde funcionar? É claro que não, existem todos os administrativos e juristas de uma área tão difícil que é o aprovisionamento, aquele que é muitas vezes criticado nas notícias, sem qualquer razão ou por fake news de que não existe material, eles são o pessoal das compras, que obedece a um código de contratos públicos tão complexo e têm a missão de garantir que nada falte, desde uma simples pilha de um termómetro, a uma máscara, a uma prótese… Eles garantem que existe o material necessário para todos nós!

Como é óbvio, existem áreas fundamentais como a cozinha, os recursos humanos, financeiros…

São estes homens e estas mulheres os heróis invisíveis e que também deixam as suas famílias em casa e muitas vezes arriscam as suas vidas para que tudo o que é visível funcione! E todos, visíveis e invisíveis, tornam possível a nossa crença, sustentada, de que a nossa Saúde funciona para que a Madeira possa seguir adiante.

Os Madeirenses, a todos eles, dirigem um alto e sonoro – bem hajam! Muito Obrigado!

quarta-feira, 18 de março de 2020

QUANDO 800 GRAMAS SÃO 1000 GRAMAS

Ao meu filho tento sempre ler histórias que tenham alguma moral ou sentido ético, enfim, de que se extraia uma lição que lhe sirva para a vida além do entretenimento da leitura infantil, que traz o sonho e alimenta a imaginação.

Recentemente, temo-nos deparado com tanta indignidade de uma infinidade de coisas. Mas será que é assim mesmo?

Li uma história de um padeiro que certo dia comprava um quilograma de queijo, contudo, constatou que andava a ser enganado, pois o vendedor de queijo só colocava 800 gramas. Indignado, foi fazer queixa, lá na ASAE ou na ARAE da zona, pois andava a ser espoliado.

Nessa altura, o inspetor responsável tomou as diligências e pediu para aferir a situação, ao que o vendedor de queijo, que só possuía daquelas balanças antigas, uma daquelas em que é necessário o contra peso, mas, como não tinha os pesos, usava dois pães que comprava ao padeiro, cada um de meio quilo para perfazer um quilograma.

Assim, o inspetor foi então verificar a padaria e detetou que o quilograma de queijo equivalia a um quilograma do pão que comprará ao acusador. Conclusão, o acusador era, na mesma, o próprio prevaricador.

Ora, recentemente soube-se que vários juízes do Tribunal da Relação estão envolvidos em imbróglios jurídicos em que eles mesmos deviam ser os guardiões protetores da lei e da ordem… Ora… Que padeiros me saíram…

Também, temos visto políticos que ameaçam e quase encostam às cordas tudo e todos… Quando, no fim, não passam de padeiros, que se achavam enganados pelos vendedores de queijo, mas que eram iguais a esses outros. Toda a história repete-se, com outro tipo de protagonistas. No fim há só uma lição a tirar. A lição da moral da história é algo deste género: muitas vezes acusamos os outros das nossas condutas, logo não vale a pena julgar para não sermos julgados!

Observe-se: tenho a certeza de que o inspetor da ASAE não era nenhum daqueles envolvidos no alegado caso de bilhetes para os jogos de um qualquer clube de futebol. Quer dizer… neste caso, ele deixou que os pesos fossem pães, não me parece uma boa prática.

Post Scriptum: Todos nós conhecemos a história do Pedro e do lobo. Pedro alarmava os aldeões com a chegada do lobo, uma peta que repetia todas as vezes, e, quando aconteceu mesmo o lobo vir, ninguém quis saber. Tem sido assim no Mundo, a gripe das aves, com o Ébola (apesar de ser real), agora é com o Coronavírus. Não sei se o lobo vem aí, mas gostaria de pedir a todos que sigam as medidas de contenção. Aproveite, após ler estas páginas, para lavar as mãos e desinfetar.

Artigo publicado JM- Madeira - Siga Freitas

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

RACISMO: CONDENAR SEM MAS, NEM MEIO

Há semanas, escrevi nestas páginas que Portugal não é um país racista. Mantenho as palavras e completo: Portugal não é um país racista, mas, infelizmente, como em todos os países do Mundo, existem racistas.

A questão ali em Guimarães não se resume ao racismo, mas sim ao ódio que se vive no desporto, em geral, e no futebol, em particular. Basta verificar as largas horas diárias em que se inventa e especula nas televisões portuguesas sobre situações extra-futebol, fazendo odes ao ódio e às rivalidades.

Quando o Marega saiu do campo, foi com o mesmo sentimento em que um médico, enfermeiro, professor são agredidos no seu local de trabalho, e aí merece a indignação de alguns. O drama da dor que todos eles sentiram é semelhante. Quando escolheram ou tiveram oportunidade de ter uma dessas profissões, nunca imaginaram que seriam tratados de tal forma. O Marega, nesta situação, fez mais pelo debate sobre racismo em Portugal do que muitas campanhas contra o racismo, algo que nenhuma associação, nem qualquer político tinha conseguido trazer para o nosso quotidiano. Confesso que adorei ler e ouvir algumas frases, de alguns ditos “não-racistas”, tais como: “eu até já estive em Angola.”, “eu até tenho um amigo preto.”, “eu até já festejei golos de jogadores pretos…” ou até algumas pessoas a querer normalizar toda a situação. Não, meus amigos, não é normal ser insultado, seja de que forma for, muito menos utilizando a discriminação da raça como tal. É verdade, algumas dessas pessoas que escreveram ou disseram essas alarvidades, eram as mesmas que chamavam alguns colegas de caixas-de-óculos, de gordos, de atrasado, de mongoloide, de preto, de ruço e sei lá mais o quê. Eram os tempos, era coisa de crianças…” Tudo começa com uma tentativa de normalização do que devia ser respeito e de anormal.

Pois, ainda há quem entenda, nomeadamente os juízes da 9ª Seção Criminal do Tribunal da Relação de Lisboa, que certos comportamentos no futebol são passíveis de: “um comportamento revelador de falta de educação e de baixeza moral e contra as regras da ética desportiva (…) é também ele, de alguma forma, tolerado nos bastidores da cena futebolística.” E concluem: “numa envolvência futebolística não têm outro significado que não seja a mera verbalização das palavras obscenas, sendo absolutamente incapazes de pôr em causa o caráter, o bom-nome ou a reputação do visado.” A circunstância enquadra, mas não releva tudo.

Esta decisão indicia, erroneamente, que, se os seus profissionais, sejam jogadores, equipas técnicas, árbitros, ou delegados, etc… estiverem a desempenhar as suas funções, podem ouvir e podem ser insultados verbalmente com as vitupérios mais obscenos, que “no pasa nada”. Será que um médico, quando falha um diagnóstico, um engenheiro, quando falha um cálculo, um professor, quando não ensina como deve ser, um político, quando não cumpre as suas promessas, podem ser insultados no desempenho das suas atividades? Ou então… receber insultos porque sim, pois existe uns apoiantes que não gostam ou porque vai contra os seus interesses.

Mais vergonhoso é o Secretário de Estado do Desporto vir para a televisão falar que há um combate à violência no desporto, quando quem vive e sente o desporto afirmar que não se apercebe de nada, nadinha. Ah… É verdade que, se for um pequeno clube, um atleta sem qualquer destaque nacional, isto é, não for dos três grandes, não será dado o merecido destaque nacional que a situação mereça. Mas isso não desmerece o seu sentido é absoluto: insulto é insulto, racismo é racismo e não o deixa de ser, mesmo circunstancialmente, isto é, quando envolto no manto da circunstância em que ocorre. Não ao racismo, sem mas, nem meio mas.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

O HOMEM, ESSE ANIMAL ENIGMÁTICO

Hoje, dia 12 de fevereiro, é o Dia de Darwin, pois foi o dia em que ele nasceu em 1809.

Com Darwin, tivemos o início do conceito da teoria evolutiva e, posteriormente, a teoria da seleção natural. Atualmente, verificamos que, desde então, a humanidade só pode estar a “evoluir negativamente”.

Quando se vê adolescentes à pancada, sem qualquer tipo de motivo ou por meros motivos tão triviais, ficamos perplexos, mas, como disse um piloto alemão, Erich Hartmann, “a guerra é um lugar onde jovens que não se conhecem e não se odeiam se matam entre si, por decisão de velhos que se conhecem e se odeiam, mas não se matam”.

Desde que me lembro de sair à noite que assisti a pancadarias, fossem na rua, fossem em bares e discotecas. Nunca estive envolvido em nenhuma, até porque acredito que cairia rapidamente. Mas a questão com a teoria da evolução de Darwin coloca-nos questões. Já conseguimos ir à Lua há mais de 60 anos, já se consegue comunicar com alguém a milhares de quilómetros, Viajamos como nunca, conhecemos milhares de pessoas, conseguimos ter as notícias à mão, temos uma câmara fotográfica e de filmar num telemóvel… Mas ainda temos algo tão primitivo como andar à pancada? Claro que sim… Os animais na selva ainda fazem isso, é algo natural. É a seleção natural… “só os mais fortes sobrevivem”, não é assim a teoria mas a verdade é que os animais, muitas vezes, têm mais traços humanos que os próprios humanos. E nos humanos, subsiste a animalidade, por mais séculos de civilização que criem uma pelica de verniz urbano. Por exemplo, na semana passada um orangotango tentou salvar um guarda que estava num rio cheio de cobras, a imagem foi captada por um fotografo amador na área de conservação no Bornéu.

Mas nestas cenas todas, tal como os bodes batem com os cornos para mostrar a sua virilidade, ainda é assim que os humanos, alguns, ou serão todos?, se portam de quando em vez.

Ainda para celebrar Darwin, constate-se que a Europa está a conseguir algo único, que, até agora, nunca havia acontecido: a próxima geração viverá pior que a antecessora, quando os nossos antepassados viveram sempre piores do que nós, ao passos que e nós havíamos sempre evoluído. Os nossos avós que nada tinham, conquistaram, na luta e no trabalho, a evolução que tiveram, e já conseguiram dar alguns estudos aos nossos pais Estes, por sua vez, pais deram-nos mais estudos e por aí adiante… Agora chega à nossa vez, será que vamos dar aos nossos descendentes o mesmo que nossos pais nos deram? Tal como dizia Josiah Bartlet, personagem interpretada por Martin Sheen na série “Os homens do Presidente”, que representava um Presidente dos Estados Unidos da América: “Devemos dar aos nossos filhos mais do que nós recebemos!”

Tal como diria Darwin: “O homem, com suas nobres qualidades, ainda carrega no corpo a marca indelével de sua origem modesta.”

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

RUI PINTO, HERÓI OU VILÃO?

Na passada segunda-feira, Portugal acordou em sobressalto, quando o advogado William Bourdon assumiu Rui Pinto como a fonte dos Luanda Leaks. A semana passada foi um rodopiar de vitórias de uma certa comunicação que disse que tinha feito uma grande investigação, quando agora se soube que é só de um homem o turbilhão das notícias.

A questão no Luanda Leaks é que coloca em causa, não só um sistema, Angola, que nesse penso que na Europa nunca ninguém acreditou, mas agora envolve Portugal. Se até a semana passada o Ministério Público devia investigar sem dó, nem piedade e colaborar com Angola… Agora que se soube que foi o Rui Pinto já se viu nas televisões comentadores, muitos deles interessados noutros casos que o Rui Pinto descobriu, em querer dizer que nada daquilo é válido. Se na semana passada eram válidos, desde segunda-feira que não devem ser validados ou são ilegais ou são não sei o quê.

Nestes dias vemos a cara de medo destes opinion makers, porque sabem que estão, como se diz em bom português “com o rabo, isto é, com a coerência presa”.

Como pode um rapaz estar há 1 ano preso, quando a pena máxima a que pode ser condenado são 5 anos? E isso dará, no máximo, uma pena suspensa. As autoridades portuguesas estão a gozar connosco. Ele demonstrou crimes de enorme gravidade, desde o futebol, que em envolve a política, sociedades de advogados, uma alegada violação do sistema judicial, agora demonstrou os documentos do Luanda Leaks. Eu acredito que ele tem muito mais coisas para revelar e com tempo irá revelar. Até lá, ele que, segundo uns, devia ser condecorado e colaborador da Polícia Judiciária, é mantido em cativeiro, quando os tribunais europeus, a última instância que ele irá recorrer, irá dar-lhe a liberdade e condenar o Estado Português.

Esta situação devia indignar todos os portugueses, no entanto a maioria prefere discutir a bola, do que ver quanto é que podiam estar a ganhar, ganhar de verdade, isto é, pagar menos impostos, ter melhores condições de vida. Devemos prender os criminosos e não aqueles que denunciem! Foram à Hungria prender alguém que denunciou vários crimes, mas não são capazes de prender banqueiros que arruinaram a vida de muitos portugueses, que brincaram com as poupanças dos nossos!!! O reconhecimento da ilicitude dos atos de Rui Pinto, não pode apagar o que foi exposto com esses atos.

Para finalizar deixo a questão: se o Rui Pinto tivesse uma mensagem de um terrorista a dizer que amanhã ia fazer atentado num avião onde eu ou você íamos, ele apresentava aos jornalistas ou alguém que o pudesse transmitir. Será que as autoridades iam considerar prioritário a prisão de Rui Pinto ou desmantelar o atentado e apanhar o terrorista?

Nota final: Goste-se ou não do novo líder do CDS, Francisco Santos Rodrigues, o que quero destacar é que os militantes do CDS/PP apostaram num jovem de uma nova geração, posso dizer que é da minha geração, isto é, a geração dos 30. A geração anterior à minha ainda aguarda uma oportunidade na política, só agora começa a ter oportunidade, que a geração do pós-25 de abril começa a dar espaço. Se pensarmos que, no pós-25 de Abril, houve uma abertura para os jovens (30 e poucos anos) entrarem na política e terem cargos relevantes, atualmente o sistema não revela essa abertura, e renovação é “trop” lenta.

Ah… É verdade… É necessário haver jovens de 2020 e não jovens de 1950, como, às vezes, nos apercebemos em alguns diálogos desses mesmos jovens.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

PORTUGAL DEVE ORGULHAR-SE DA SUA HISTÓRIA

Recentemente, foi assassinado, barbaramente, em Bragança um jovem estudante cabo-verdiano, o Giovani Rodrigues.

Certos meios de comunicação social, com o suporte de alguns partidos, deram, de imediato, ao facto um caráter ideológico e racista, mediatizando, assim, o caso de forma inadequada. Isso não exclui, antes pelo contrário, o lamento de ver ceifada uma vida na primavera da sua existência, nem de repudiar, se se confirmar, que houve, além de outras, motivações racistas, um crime a juntar ao homicídio, e que deve merecer punição pesada e exemplar.

Ao mesmo tempo, dá-se outro caso, o do Pedro Fonseca, também um jovem, assassinado igualmente de forma brutal, em Lisboa, algo que passou despercebido ou de que quase não se fala, por várias razões. Aqui não se põe a questão de ter havido ou não motivações racistas, mas apenas de assalto à vítima, como móbil do crime.

Mas se somos um país assaz racista, como alegam esses partidos, gostaria de saber como é possível Portugal ter uma ministra de naturalidade angolana, ter um primeiro-ministro de origem goesa, ter deputados das mais variadas origens, sejam dos países de língua portuguesa ou descendentes de emigrantes de países sem qualquer ligação histórico-política a Portugal, e sem que isso seja motivo de polémica? Não, não é, e não é porque isso deriva da gesta universalista dos portugueses.

Fiz uma pesquisa e são poucos os países europeus a ter governantes que sejam originários das suas ex-colónias. É o caso da França, cuja ministra da educação é de origem marroquina, contudo, caucasiana. E Inglaterra, que tem como presidente da câmara de Londres, um cidadão de origem paquistanesa.

Então onde está o exacerbado racismo dos portugueses? Onde é que vemos um país mais inclusivo do que o Portugal Democrático? A verdade é que nunca houve uma segregação racial com suporte legal e constitucional tão vincado como aconteceu nos EUA e sobretudo na África do Sul. Não é de uma candura a nossa relação com os povos que colonizamos, como, aliás, nunca o foi na história da humanidade qualquer colonização. Não conhecem a tramoia dos romanos a Viriato, com a mão dos traidores do costume? Mas não podemos passar de um extremo a outro, esquecendo o que outros mesmos disseram de nós, como é o caso do grande intelectual brasileiro Gilberto Freyre, que defende a ideia de que a colonização portuguesa, naquilo a que chamou o luso-tropicalismo, foi bem menos segregadora do que a anglo-saxónica na América.

Falando na África do Sul, por acaso alguma associação de racismo já verificou quantos portugueses, nomeadamente madeirenses foram assassinados? Já viram como é o racismo lá? Ah… Como é claro, isso não interessa, nem interessa ser denunciado, nem falado nos meios de comunicação social portugueses.

Ao abrigo deste assoberbado racismo proclamado pela esquerda diziam: “Em cada 100 jovens afrodescendentes, só 20 entram no Ensino Superior” (artigo no Público de 10/01/2020 de Nina Vigon Manso), mas, se formos verificar os dados da OCDE, em cada 100 jovens portugueses, só 40 é que têm ensino superior. Como é óbvio, estes dados não querem dizer que desses 40, 20 são afrodescendentes. Mas que a taxa da população que tem ensino superior em Portugal ainda é baixa. É um dado! Não é racismo! Não tem a ver com a raça!

Lamentemos todos os crimes, sobretudo os violentos, a começar pelo crime, o mais numeroso no nosso País, contra as mulheres nos seus próprios lares, condenemos o racismo, seja ele de que cor for, branco, negro, amarelo ou vermelho, mas não nos imolemos como povo.

Temos uma História quase milenar, que, não obstante as suas etapas de natureza diversa, nos orgulha e nos dá razões para encarar, de rosto levantado, o Futuro de Portugal.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

UM LÍDER – ASSUME-SE!


Hoje é o primeiro dia do ano, é um dia de reflexão do passado e de perspetiva do futuro. Esta madrugada passada, comemos 12 passas, uma por cada mês do ano na expetativa que 2020 seja melhor que 2019.

2019 trouxe para todos nós um Cardeal, trouxe um Governo de coligação, infelizmente, trouxe o aeroporto fechado demasiadas vezes, acidentes que provocaram a morte de várias pessoas, nomeadamente turistas, continuamos com a violência e homicídios em alta.

2020 poderá trazer novas perspetivas: uma vida melhor para todos, em especial a nível de saúde, a saúde é a pedra basilar nas nossas vidas, não precisamos de muito mais. Pois, com a mesma, conseguimos ter força para arregaçar as mangas e trabalhar e conquistar tudo o que se pretende, isto podia ser uma perspetiva coaching e de vendedor de banha da cobra, pois todos nós sabemos que, além da saúde, precisamos de um bocadinho de sorte. Não é preciso muita, é só um bocadinho. É tudo isto que peço para mim e para os meus.

As perspetivas ou expetativas que muitos demoram a perceber. Recentemente vi o Filme da Netflix de Fernando Meirelles: “Dois Papas”. Neste filme baseado em factos reais, pelo menos é assim que é apresentado, independentemente dos factos existentes ou pormenores serem ou não reais, há vários pontos que nos fazem refletir. Nós, povo, quando olhámos para o Papa Francisco ou o Papa Bento XVI vemos os contrastes entre ambos, mas em ambos há uma certeza, ambos são genuínos, ambos acreditam naquilo que transparecem. Não há um ponto intermédio. É nisto que nós, enquanto cidadãos, enquanto seres humanos, procuramos, procuramos líderes que não estejam no limbo da corda.

Que não são falsos genuínos, não queremos artifícios daqueles que não são juntos do povo e que querem transparecer que são. Ainda recentemente, o nosso Ronaldo dizia no Dubai: “humildade em demasia é vaidade” – esta frase não é em exclusivo dele, mas um saber popular que deve e pode ser aplicado em todas as áreas. Não podemos querer que alguém que se mostre junto da família, quando, na realidade, pelos diversos atos, nunca assim foi. Não se pode querer que alguém diga que é a favor da justiça, mas, ao mesmo tempo, pactue com a corrupção, dependendo do local em que se encontre, eis aí que aparece o Chega. Não se pode ser a favor e contra o Brexit, tal como Corbyn queria transparecer. Não se pode ser a favor e contra, ninguém vive no limbo.

Esta é a demonstração clara de que o que queremos são líderes convictos e genuínos. A falta de líderes europeus não é por acaso, o acaso é com as redes sociais, alguns acharem que podem ser o que não são na realidade. Nós sabemos!

Amigos, aproveito para desejar que este dia seja o primeiro das 366 oportunidades que teremos para mudar o Mundo para um lugar melhor, porque a mudança do Mundo começa dentro de nós, em primeiro lugar. É verdade, só podia acabar o artigo como comecei, com alguma demagogia, que contraria tudo o que escrevi e daquilo que não sou, um demagogo.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

O Natal da minha memória

O Natal é das melhores lembranças que tenho, enquanto criança. Lembro-me perfeitamente. Naquela altura, os meus pais e tias ofereciam sempre uma roupa nova e usava-a logo no dia 24 de dezembro, vestia a roupa, quase sempre acompanhada de umas botas e uma parca, eram as peças que mais me ficaram na memória. Saíamos de casa por volta das 20:30 ou 20:45, muitas vezes atrasados, pois a missa do Galo, na minha Paróquia, era às 21 horas, já que o Sr. Padre Sá tinha de celebrar missa às 00 horas na Igreja da Boa Nova.

Subíamos o caminho do meio, quase como alpinistas em competição, com as folhas ao largo da estrada a dançar, como querendo entrar dentro do íngreme caminho. Chegando ao Largo do Miranda, lá tocava a descer o caminho das voltas e, em passo apressado, rumo à Capela da Choupana. Já era difícil arranjar lugar sentado no salão para assistir ao Acto de Natal. Era um momento que me encantava, uma peça de teatro, sempre levada a rigor pelos paroquianos. Imaginava-me sempre há 2000 anos a assistir àquela cena do nascimento do menino Jesus. Seguidamente, subíamos um andar e íamos para a capela, ouvir as sábias palavras do Padre Sá. Confesso que só desejava ir para casa e dormir, aguardar que o Pai Natal chegasse… Até porque sabia que ele ia lá chegar. O meu professor da Primária, o Professor Firmino, dizia que tinha no terraço da sua casa uma armadilha para apanhar o Pai Natal, mas que ele tinha conseguido escapar, ano após ano… Ficava a imaginar, como é que era isso.

Noutro dia, saltava da cama e corria e corria… chegava ao pé do meu sapatinho e estavam lá tantos presentes… Há um que, particularmente, me marcou, foi uma camisola do Marítimo, com o número 9, era o número do Alex. Era o meu jogador preferido… Acho que ainda tenho essa camisola guardada e espero encontrá-la para transmiti-la ao meu filho.

Há quem diga que o Natal é das crianças, mas não está a ser exato. O Natal é de todos, não só na questão da reflexão, do recolhimento, no sentimento, na partilha, mas de todos aqueles que têm próximo de si as crianças. Hoje, o meu filho, com o tablet, através do Youtube, vê o Pai Natal, seja na Austrália, em calções, seja na Lapónia no seu tradicional fato. A sua felicidade em montar a árvore de Natal é tão grande, que nos aquece toda a casa. Imagino, como seria se ele visse aqueles milhares de árvores que ficavam à volta da casa da luz? Agora é uma mera amostra do que acontecia…

Hoje, o meu filho quer tirar fotos à árvore de Natal, ele já entende a importância do Menino Jesus, pois queria que ele estivesse por baixo da árvore. Ainda no outro dia, quando estava doente, tivemos de ir ao médico e perguntou logo à médica: “Onde está o menino Jesus?”, ela tinha-se esquecido do presépio, pois só havia Pais Natais e outros enfeites de Natal.

Ele, na verde maturidade dos seus 4 anos, passe o paradoxo, já diz coisas, que eu acho que nunca disse com aquela idade: “vamos ver as luzes de Natal”… O que seria que ele diria há 25 anos, quando as luzes brilhavam tanto como as estrelas?

A verdade é que o Natal, em cada época, em cada geração, faz-se essencialmente dentro de nós, nos pequenos momentos, nas pequenas memórias, nas prendas que pensámos que dificilmente nos vamos recordar e todas aquelas que nos lembramos, se calhar é aquela de que até o Pai Natal já se esqueceu.

Crescemos… O Natal parece começar a desaparecer para passar a ser algo mais interior, quando, de repente, o Natal volta a renascer seja com filhos, seja com netos… Seja na doce memória que há de prevalecer para sempre.

Publicado no JM-Madeira no Natal

BRINCAR CONTIGO


Voltei a brincar, despertei a criança que sempre existiu em mim e eu dizia nunca ter tempo para tal. Desde que o meu filho nasceu, como se diz, um fait divers que a vida muda drasticamente.

Não sei se foi para melhor ou para pior, a verdade é que me divirto de maneiras que já pensava esquecidas.

Quando ele diz: “papá, quero pintar na cara um dragão…” lá vou eu comprar as tintas faciais para a mãe pintar, pois ela é que tem a nota artística, ao mesmo tempo, eu também quero brincar e pinto de Joker… Aqui dá-se uma batalha de Nerfs pela corredora, pela sala e pelos vários quartos. Uma batalha em que vão pelo ar as balas de esponja e em que a gata se esconde para não apanhar com fogo cruzado. É claro que muitos vão dizer, mas brincas com “armas” em casa… Bem… É um pouco diferente, faz parte de melhorar a motricidade fina, mas também a coordenação motora de todos nós. Na verdade, é isso que fazemos.

Parte-se-me o coração quando o meu companheiro de lutas e brincadeiras fica com os olhos em baixo, e com alguma doença. Este fim-de-semana, apesar das inúmeras atividades que fizemos, ele estava doente, mas sempre que lhe dizia: “vamos brincar ao bingo” ou “vamos brincar às nerfs” ou “vamos brincar a qualquer coisa…” Ele arregalava os olhos e dizia: “vamos”, mas depois, rapidamente, emornecia com os doidóis na garganta, na barriga ou em outro lugar qualquer.

Confesso que, apesar de querer que ele fique sempre pequenino para poder brincar, abraçar, beijar, sem que ele fique envergonhado, que ele venha a correr para os meus braços, sem ficar embaraçado à frente dos amigos…, confesso que desejo que cresça para podermos começar a jogar Playstation juntos… Eu ganhar-lhe no FIFA… ‘Tá bem… Por vezes vou deixá-lo ganhar.

Voltando um pouco atrás, quando chego à creche, para o ir buscar, refira-se, porque, para o deixar é sempre um drama dele e da mãe. Mas pronto… Quando chego à creche e consigo ir a dentro buscá-lo, é uma felicidade enorme vê-lo a correr para abraçar as minhas pernas ou quando baixo o meu pescoço, é enorme o orgulho em ver-me olhando para os seus amiguinhos. Temos de sentir estes momentos, pois, no amanhã, ele já não fará nada disto e ficará envergonhado de abraçar-me, sobretudo naquela fase em que os filhos se afastam para crescer, até que, já crescidos, voltam de novo ao ninho paterno.

Tudo isto transporta-me para uma passagem de um livro de Tolentino Mendonça em que fala da figura do pai e diz: “Os estereótipos culturais, os resíduos de modelos autoritários, os tiques marialvas ou a timidez afastam os pais da palavra aberta e sentida, da confidência ou de expressões de afeto tão básicas como um abraço. A maior parte de nós não chega a dizer ao pai como o ama, nem a escutar da parte dele qualquer coisa semelhante.”

Eu espero ser diferente, enquanto pai, mas também um pouco como filho. Por isso, dizer que amo o meu filho, tal como amo o meu pai. Aproveite ao ler este artigo e tente ser esse filho, filha diferente a partir da nossa cultura!

Post Scriptum 1: Atenção, pedagogos, especialistas e afins… Em casa também dizemos que não a várias coisas, não é à vontade do menino ou, como diria a mãe, não é à vontade dos “meninos”.

Post Scriptum 2: Infelizmente, o Cardeal José Tolentino Mendonça não ganhou o Prémio Pessoa deste ano, no entanto, no próximo ano, o Movimento Madeira-Autonomia voltará a propô-lo.

Post Scrimptum 3: Aproveito para dar os parabéns ao Tiago Rodrigues por ter ganho o Prémio Pessoa.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

NATAL IS LOVE. E BARRACAS,

Chegamos ao Advento, época muito importante para todos os Cristãos. Uma época de paz, amor, essencialmente de renovação e limpeza espiritual.

Quando Maria e José se deslocaram a Belém, para o recenseamento, não conseguiram um quarto numa estalagem, tiveram de ficar numa gruta. Não encontraram lugar.

Nestes dias, os feirantes do Santo da Serra, tinham ficado sem lugar para fazer os seus negócios, pois a Câmara decidiu devolver os terrenos à Diocese. Felizmente, esta semana a Diocese e a recém-criada Associação conseguiram chegar a um acordo e voltará a feira. Os feirantes encontraram a sua estalagem, não foi preciso procurar uma qualquer gruta.

Finalmente, chegamos ao Funchal, num vai à frente, vai atrás, lá se decidiu o que se ia fazer na Placa Central. É o espírito de Natal, de paz, amor e harmonia. Antes foi necessário criar um massacre de inocentes, não o de Herodes, naquele tempo, mas de quem vive do seu esforço. Foi tudo mal gerido, seja pelo Governo, seja pela Câmara e quem ficou quase a perder foram os comerciantes, turistas e madeirenses. Pior ficaram os comerciantes, pois ficaram na incerteza e muitos deles já com encomendas e stock prontos para as barracas do Natal.

Gostei de ler os argumentos de parte a parte, não os vou rebater, mas devo dizer que ninguém ganhou, antes pelo contrário, ambos perderam. Uns as chaves da casa de banho, outros a compostura e ambos o norte. No fim a razão? Nenhum teve ou tem. Todavia, teremos as barraquinhas “desejadas” pelo Povo.

O nascimento de Jesus é uma época tão importante que nós, madeirenses, designamos como “A Festa”, não é uma festa qualquer, é simplesmente “A Festa”, nesta festa, quando se fala da nossa cultura escreve-se sobre a matança do porco, as missas do Parto, as luzes, a lapinha, a noite do Mercado, o “carrossel” no Almirante Reis, do Circo… E agora “a Placa Central”… De facto, os costumes e tradições, vão alargando, mas será que existia a necessidade desta discussão em público?

Os madeirenses e, neste caso particular, os funchalenses não querem saber de barracas, querem saber do que os políticos irão executar e realizar nos próximos tempos, isso sim, desejam ter um sapatinho mais recheado, desejam que, no próximo ano, existam os frutos na lapinha que há tantos anos ambicionam. Alguém acha que um turista vem da Alemanha, que tem mercados de Natal que são fora de série, à Madeira por causa de umas barracas? Alguém acha que, se não existissem as barracas, as pessoas não estariam felizes? As decorações adoçam-nos os olhos, mas a verdadeira iluminação do nosso coração e espírito é o nascimento de Jesus. Pensem nisto!

Agora que as barracas estão montadas, só nos resta dizer aquela tradicional expressão, que os madeirenses utilizavam, quando iam à casa dos vizinhos ou familiares nesta época: “E o Menino Jesus já faz xixi?”, isto é, tem um licor do natal nesta casa?

Post Scriptum 1: Será que, depois das declarações de um dirigente do Livre da Madeira, ups… do JPP, vão abrir um processo à Joacine? Ups… não é Joacine é ao deputado municipal do JPP que votou contra o Orçamento Municipal?

Post Scriptum 2: Ou será que o JPP fará um voto de louvor, por este ter ido contra a disciplina partidária, pois já aprovou o voto semelhante em Santa Cruz a um vereador da oposição. Qual será a coerência ou falta dela deste partido familiar? Claro que o JPP nada fará porque lhe falta moral, não foi ele criado na indisciplina partidária dos seus dirigentes no partido de origem, de que são “filhos”?

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

O AUTOPROCLAMADO PRESIDENTE QUE (NÃO) NOS GOVERNA

A moda dos autoproclamados veio para ficar. Esta moda, apesar de parecer recente, não é, já na nossa longínqua história temos verificado muitos autoproclamados. Mais longinquamente, o Mundo foi confrontado com o “Autoproclamado Estado Islâmico”.

Recentemente, tivemos o autoproclamado Presidente da Venezuela, depois tivemos a autoproclamada República da Catalunha, ainda agora temos a autoproclamada Presidente da Bolívia… E finalmente, chegamos à nossa ilha, que não podia ficar atrás e está sempre na vanguarda do desenvolvimento, temos o autoproclamado Presidente Paulo Cafôfo com um “autoproclamado programa de governo”.

Ora pergunta-me o leitor: – Mas então agora a Região Autónoma da Madeira tem dois Presidentes?!

– Caro leitor – respondo eu – é o que temos visto. Veja-se, a semana passada discutiu-se o Programa de Governo do PPD/PSD e do CDS e, ao mesmo tempo, o dono da gata Ofélia, isto é o Cafôfo apresentou o seu “programa de Governo”.

– Como é que isso é possível? – questiona, e bem, o excelentíssimo leitor.

– Só em “democracias” avançadas e evoluídas como na Venezuela e na Bolívia é que é possível. Isto, claro, para aqueles que assim as consideram.

Ora vamos analisar a grande maioria das propostas.

– Propostas, mas há propostas? – volta a retorquir o leitor.

– Caro leitor, meu amigo, claro que há… As principais propostas do autoproclamado programa de governo do dono da Ofélia são: Ferry o ano inteiro, Hospital Novo, uma solução para o aeroporto, um novo modelo de subsídio das viagens… estava tudo prontinho a servir, isto se ganhasse o partido do Chefe Costa, agora, não sei se vão fechar a cozinha!

– Mas isso é o programa de Governo do PPD – interrompe a minha escrita o leitor.

– Caro amigo, não estou a entender a sua dúvida! – exclamo eu.

– Ora, Eduardo, se o PSD e o CDS prometeram isso, eles também têm isso no programa…

– Ah… Já percebi a sua dúvida. A diferença aqui é nos protagonistas! Ora veja… O PS do Pereira, autoproclamado líder do PS que não queria que o PS do autoproclamado presidente independente ganhasse as eleições e fez tudo o que o PSD precisava para ganhar, pois as propostas de fundo eram as mesmas. Entende?!

– Isto é tudo muito confuso… O que interessa é quem é que paga a espetada e faz uma festa à grande! – exclamará o leitor.

– Com essa é que me lixou… Então, mas não quer saber das medidas do Autoproclamado Governo Independente Socialista?

– Desde que acabaram com a festa da liberdade e começaram a fazer aquela festa de queques na Praça Amarela que aquilo perdeu interesse. Veja, qualquer dia chega um qualquer e acaba com essa brincadeira. Já diz a nossa popular música: “deixa passar esta nossa brincadeira…”

– Olhe… – observo o texto a olhar para o portátil – se calhar tem razão. É melhor ficar assim. Ficamos com um Governo e um Autoproclamado Governo que dirá que fará mais força junto da República para conseguirmos a realização das pretensões da maioria dos madeirenses. Mas aí, o natural é que o Governo do Chefe Costa nos volte a servir o prato que já nos serviam no tempo do Estado Novo e chamar-nos-á ingratos pelo tanto que têm feito por nós. E nós acharmos que não temos de agradecer o que é de obrigação. Ou seja, guarda os tachos que estavam reservados à família e não há comida para ninguém!

Publicado no JM-Madeira - Siga Freitas

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

A HIPOCRISIA DE UM PAÍS

Portugal esta semana está no centro do Mundo ou melhor, Lisboa. Os políticos portugueses só se interessam por Lisboa. Qualquer outro tipo de evento que tenha alguma escala é roubado para Lisboa ou terá que ser em Lisboa! A razão? Simples para eles. É o único local com as condições para tal, no entanto obriga sempre todos os “contribuintes a contribuir” para a construção de mais qualquer coisinha, como é o exemplo das Jornadas Mundiais da Juventude em 2022.

Acabando com a história do centralismo, que todos já conhecemos existir. Vamos ao Websummit. Portugal volta a acolher o Web Summit, sendo a maior conferência da Europa de tecnologias e que se realiza anualmente desde 2009. Este ano tem a particularidade de “trazer” virtualmente Edward Snowden, que está asilado na Rússia. Edward Snowden denunciou, sacrificando a sua vida pessoal, os vários atentados à liberdade e privacidade que cada um de nós sofre às malhas do Governo Norte Americano, mas também das milhares e empresas web.

Na passada segunda-feira, ele voltou a referir que todos os dados que empresas como a Google, Facebook e etc… recolhem são para benefício delas e para usar em outros tantos dados. Tudo isto é certo, cada um de nós deverá ter a consciência que ao estarmos na web estamos a ser espionados e estamos a partilhar a nossa privacidade, se é que podemos chamar a isso privacidade.

Voltando a Portugal e a Edward Snowden, o que tem em comum? Nada, absolutamente nada, pois este mesmo Portugal que paga para ter a Web Summit e convidados como Edward Snowden a explanar sobre cybersegurança, mas também sendo o maior whistleblower, tem em cativeiro Rui Pinto.

Rui Pinto é um rapaz português que está preso há cerca de 6 meses e qual a razão? Por ter invadido sistemas informáticos e partilhando informações do desconhecimento geral, mas que se revelaram essenciais para várias entidades de países europeus recuperar impostos, que várias personalidades deste mundo continuam a fugir. Em Portugal, quando começou a ser revelado tais esquemas, a justiça conseguiu arranjar maneira de ir à Hungria e prender, sem nunca ter sequer querido recuperar cêntimo de impostos roubados ao Estado Português.

Este whistleblower não é totalmente inocente, mas fez o trabalho que as autoridades portuguesas deviam ter feito. Contudo, até hoje como se sabe todos estes assuntos de fuga aos impostos em nada interessam, até porque os Panama Papers estão esquecidos em uma qualquer gaveta.

Só quero demonstrar a hipocrisia de um país que se veste de gala para receber um whistleblower, mas que se esconde e mantém em cativeiro outro whistleblower.

Publicado no JM-Madeira no Siga Freitas

sábado, 2 de novembro de 2019

QUEM CONTA UM CONTO ACRESCENTA-LHE UM PONTO

Este conto não é meu, é um conto tradicional português e então, como todos os contos, começa assim: Era uma vez… Ou:

Havia um pescador que tinha uma mulher gulosa e má, além de preguiçosa. Não lhe fazia comida e ele, como não fora habituado, numa sociedade antiga e patriarcal, a cozinhar, só comia pão com azeitonas, Já para ela própria, fazia a mulher do pescador preparava bons petiscos e comia-os sozinha. Depois cantava uma canção: “Estende-te, perna,/Descansa corpinho,/Que lá anda no mar/Quem te há-de dar/Pão e vinho./Quando o pescador vier,/Coma azeitonas se houver.”

E assim era, quando o marido chegava a casa, só havia pão e azeitonas, em que ela dizia que já tinha comido. Ora… Lamentava-se todos os dias o pescador da sua pouca sorte. Ora… imaginem alguém que tem tudo e nada divide, nem se importava com quem dava o sustento da sua casa. Ele andava desconfiado que a sua mulher comia às escondidas. Um dia, ao ir para o mar, encontrou uma velhinha que lhe disse:

- Não te apoquentes mais que amanhã já comes melhor. Toma lá estas quatro bonecas e põe uma em cada canto da cozinha, mas que a tua mulher não veja.

Ele assim fez.

No dia seguinte, quando a mulher se preparava para comer os petiscos, ouviu:

- O que vai fazer aquela mulher? – interrogava a primeira boneca…

- Ora… vai comer!... – respondia a segunda boneca.

- Mas o marido não está em casa! – exclamava a terceira boneca.

- Bem se importa ela com o marido. É uma gulosa – sentenciava a quarta boneca.

A mulher, assustada, olhou e não viu ninguém. E volta a olhar para os petiscos e decide comer, mas ouve novamente a mesma conversa. Ficou cheia de medo e fugiu porta fora. Mas voltou a ficar com fome e regressou a casa e ouviu novamente as mesmas vozes. Então aguardou que o marido chegasse.

O pescador ficou admirado com a mudança. No dia seguinte, antes de sair para faina, a mulher diz-lhe:

- Olha, vem cedo que eu tenho cá um bom jantarinho.

Assim foi… Ela nunca mais comeu sem o marido. Tempos depois foi o pescador à procura da velhinha, que era uma fada, entregou-lhe as bonecas e agradeceu-lhe muito o que lhe tinha feito, pois agora já era feliz.

Felizes daqueles que, após avisos das bonecas ou bonecos, percebem que devem estar ao lado dos seus e não ao lado dos outros, pois sem os seus irá faltar a comida em casa. O mérito do trabalho deve ser recompensado, pelas esposas, por muito gulosas que sejam.

Um dia as bonecas podem perceber que não chega falar e aí buscar outra esposa para o velho pescador!

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

“APRENDO A CAIR E A PERGUNTAR”*


É um orgulho para qualquer português, em especial os madeirenses, ver Tolentino Mendonça nomeado Cardeal. Eu não o conheço pessoalmente, não me recordo de ter cruzado com ele em qualquer lugar, mas penso que todos nós o admiramos e sentimos que ele é parte de nós, madeirenses. Alguém que nos eleva, alguém que nos carrega nos seus ombros e, quem sabe, não fará um “forcing” por nós, junto de todas as santidades do Céu e da Terra.

Numa das muitas entrevistas da semana passada, houve várias declarações que me tocaram… Ele falou enquanto bibliotecário, em que dizia que passeava entre as estantes de livros, amava os livros como um jardineiro ama as rosas, e, enquanto passeava pelos jardins, amava as flores. As ideias são as dele, as palavras aqui escritas são a minha maneira de as traduzir.

A outra parte que me tocou foi quando respondeu como se sentia em relação ao novo cargo para o qual fora nomeado: “A vida vai-nos dando, pela mão de Deus, os caminhos, mais do que os pesos, porque a vida de um cardeal é pesada, mas a vida de um pai de família também é, a vida de um operário, a vida de um desempregado, a vida de um homem sobre a terra, a vida de um refugiado, a vida de alguém que constrói a sociedade”. Ou seja, na hermenêutica do texto que as suas palavras acabam por cerzir, cada um carrega a sua - Cruz.

Ele comparou a sua nova vida, não à de um homem importante, ou de um banqueiro, ou de um primeiro-ministro, presidente, ou rei, mas à suma importância da vida de cada homem, com o exemplo simples e solene, daqueles, os mais simples, que tocam a vida com as mãos calejadas e com o sentimento do coração esculpem a sua alma.

Estas palavras tornam-nos habitantes da Terra em igualdade cristã plena e todos conseguimos sentir o que sente o Cardeal Tolentino Mendonça. Mais e além disso - ele demonstra e bem o que sente um operário que labora as horas e constrói, com suor e lágrimas, a vida própria para que a vida de todos se dignifique: ainda que haja por salário um valor materialmente insustentável, comporta-se como o mais bem pago da sua empresa, porque executa, na perfeição possível, toda a obra-prima que sai desse labor, porque, ao menos, lhe foi dada a dignidade negada aos desempregados, Refugiados no seu próprio país, privados da pátria plena como todos os expatriados. Disse o Papa Francisco ao Cardeal que traz em si a Madeira em sua indumentária púrpura: “Tu és a poesia” – porque em Tolentino cada palavra se torna uma metáfora da Mensagem.



quarta-feira, 25 de setembro de 2019

SQUARE DEAL*


Ponto prévio, estou a escrever este artigo e neste momento, que se saiba, ainda não houve nenhuma negociação e sobretudo não há ainda acordo entre o PPD/PSD e o CDS/PP. De acordo com uma notícia que li, só vão reunir hoje mesmo, quarta-feira, logo já poderão ter lido este artigo.

No passado domingo, o PPD/PSD voltou a ganhar as eleições, mas, desta feita, sem a almejada maioria absoluta.

A missão e objetivo do PPD/PSD era continuar a lutar pela autonomia e por todos os madeirenses, não obstante terá de realizar um acordo com o CDS/PP. Não é algo com que qualquer militante ou simpatizante do PPD/PSD fique confortável, habituados que estavam a maiorias absolutas. Reconheço, todavia, todas as capacidades e méritos dos seus líderes e respetivos militantes, mesmo os dissidentes do PSD e do CDS.

O “partido gaulês” já disse que a sua missão é fiscalização, se calhar deviam entender qual é a função dos deputados, pois é muito mais do que fiscalizar, pois se era para fiscalizar apenas deviam ter-se candidatado a juízes do Tribunal de Contas ou tentar ir para o Tribunal Constitucional e não para deputados.

Mas vamos ao cerne da questão, se o PPD/PSD necessitar do CDS/PP para governar há que negociar o seguinte:

Uma vice-presidência (talvez incluindo a economia ou algo semelhante) e uma secretaria tipo ambiente, agricultura ou inclusão social, alerto para o facto de que só devem ter, no máximo, duas pastas e nenhuma dessas pastas deverá ter as Casas do Povo, quero dizer se ficarem com a Agricultura, a Inclusão Social deve ficar com as Casas do Povo e vice-versa. Eventualmente poderão aceder a uma outra subscretaria, previsto, mas existente, na lei.

Até aqui estará tudo bem, tudo o resto será em demasia e o PPD/PSD nunca deverá ceder, pois o CDS só tem 5%. A razão é simples: o CDS também precisa do PPD/PSD para não desaparecer do mapa parlamentar. Caso o CDS não aceite estas condições, o PPD/PSD deverá formar Governo com a maioria relativa e o CDS terá de ser coerente com o seu programa ou ideologia ou alinhar com “as esquerdas unidas”, não tão unidas, o PCP já veio demarcar-se, se estas apresentarem uma moção de rejeição ao programa do partido mais votado.

Aqui, o único cenário possível, será irmos novamente para eleições, já que uma coligação entre o PS, CDS e JPP apresenta-se como “contranatura”. Logo, o Presidente da República deverá convocar novamente eleições, caso o Presidente fique com dúvidas, o PSD deverá dar as razões para um ato eleitoral antecipado, para que o Presidente possa decidir livremente a convocação do ato eleitoral.

Existindo eleições, o CDS e o JPP, sem falar da CDU irão desaparecer, pois os votos vão ainda mais bipolarizar-se, aqui o PPD/PSD terá a oportunidade de voltar a garantir a maioria absoluta para governar a Madeira da melhor forma possível.

Como diz o ditado popular: as eleições seguintes começam-se a vencer na noite das eleições anteriores!

Post Scriptum 1: O caderno de encargos quer dizer mesmo o quê? Se for só “ideias” podem dar suporte ao Governo desde a Assembleia ou não?

Post Scriptum 2: *Resumidamente o título refere-se a um programa implementado por Roosevelt que visava proteger os cidadãos da classe média da plutocracia, ao mesmo tempo que salvaguardava as empresas das exigências mais extremas dos sindicatos.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

O MEU FILHO DESPERTA A CRIANÇA QUE HÁ EM MIM!


Nos últimos quase 4 anos, a minha vida social mudou drasticamente. O que quero com isto dizer é que agora a minha vida social rege-se pelo meu maravilhoso filho.

As festas a que normalmente vou são festas de aniversário de crianças, que acabam no máximo às 18 horas ou às 13 horas. Ultimamente tento deixá-lo lá e ir dar uma volta, mas é necessário ir lá buscar… confesso que é muito divertido.

Já em casa, a diversão, ultimamente, resume-se ao Luccas Neto, ao Brancoala, no Youtube, vemos vídeos sem parar, dos mesmos. Confesso que a nova casa do Brancoala no Estados Unidos é fantástica, eu sei… eu sei… não sabem do que estou falar… Mas é possível que brevemente descubram.

Além de ter que ler histórias, não para dormir, porque não é esse o hobby favorito, é necessário brincar com as Nerf’s. Vou explicar, a nossa casa transforma-se num espaço de combate, em que eu sou sempre o mau, muitas vezes, nem posso ter Nerf, em que tem de haver um som de fundo, normalmente o Luccas ou o Brancoala, igualmente a brincar com uma Nerf, e temos que tentar acertar com as “balas” de esponja. Ah… é verdade… A Nerf é uma espécie de arma que possui umas munições de esponja que saem com alguma pressão.

É claro que este é um dos momentos mais altos do meu dia… Brincar com as Nerf’s.

É verdade, também em relação à atividade física, resume-se à natação a que o levo, quando tenho disponibilidade. É verdade, quando se fala em autonomia é aqui que espero que ele encontre, pois também desejo atirar-me à água para poder praticar, acredito que nunca farei um Porto Santo até à Madeira, mas já ficaria contente fazer um Ponta Gorda até à prancha.

Outro grande momento na vida social é, sem dúvida, quando me sento a ir apoiar o Marítimo no nosso estádio e ver algum jogo de futebol, já o tentei levar, confesso, mas ele fica preocupado quando os jogadores caem e diz: “eles fizeram um doidoi grande!” e quer sair ao intervalo.

É verdade, recentemente, fomos ao cinema, fomos assistir ao Rei Leão. Foi a primeira vez dele, e a minha primeira vez no cinema, nos últimos 4 anos… Ele a meio já estava algo cansado, até que, finalmente, apareceu o Timon e o Pumba, aí tornou-se tudo mais divertido e no fim chorava revoltado, pois o filme tinha acabado e queria mais. Quem é que o entende?

E praia? É verdade, a praia, é tudo muito fantástico! Com exceção da entrada na água, pois a mesma está fria. E que tal a água estar mais quente, só para agradar-lhe? Boa?

Ah é verdade… E aquelas aplicações que colocam máscaras e fazem efeitos na nossa imagem? Essa é, sem dúvida, uma diversão sem paralelo, pois há numa dessas miscelâneas de apps em que eu fico com a cara dele e ele com a minha… É uma comédia!

Uma coisa é certa, estes e outros tantos momentos que eu, ele e a minha esposa temos e estamos juntos são dos melhores investidos, o investimento não é essencialmente nele, mas é fundamentalmente em mim, na aprendizagem, na alegria que levo em mim. Ele era algo que faltava em mim e eu não sabia que faltava… Ah também, é claro, brincar com as Nerf’s. Ah é verdade: o meu filho desperta a criança que há em mim! E cuida-a bem.

Post Scriptum: Aguardo ansiosamente que ele possa começar a jogar Playstation.

Publicado nesta quinzena JM-Madeira

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

“AMAZÓNIA, INSÓNIA DO MUNDO”


Conta-se que no hinduísmo, em especial o nepalês, acredita-se que a melhor pessoa do mundo, possui algo de mau, ao mesmo tempo a pior pessoa do mundo possui algo de bom. A batalha interior que cada um trava para derrotar o mal é imensa.

Com isto quero dizer que a líder ou coordenadora do Bloco de Esquerda, por vezes consegue encontrar o seu lado bom ou então o seu lado mau, dependendo da ocasião.

Veja-se o que ela disse: “Amazónia a arder. Uma tragédia que tem responsáveis.”, e ela tem toda a razão, pois, se a Amazónia é Património Mundial da Humanidade, a responsabilidade é de todos nós.

Contudo, noutro cenário, a mesma coordenadora rezava para que chovesse, sem que apontasse qualquer responsável. Tal como defende o hinduísmo, todos temos algo de bom e de mau no nosso íntimo.

Mas vamos ao cerne da questão: a Amazónia está a arder e isso preocupa-nos a todos, todos somos responsáveis, todos, sem exceção, todos os que compram livros, todos os que comem carne, todos os que comem soja, todos nós temos uma quota-parte de responsabilidade no problema do eventual desaparecimento da Amazónia.

Mas será que só a Amazónia nos deve preocupar? Os nossos hábitos têm que mudar, os fornecedores têm que procurar ir ao encontro de algo mais sustentável para o Mundo.

Recordo-me das excelentes campanhas que tivemos na Madeira, algo que devia ser recuperado, a geração do fim dos anos 80 e início dos 90 lembra-se, com certeza, do “João Verdinho”. Diria que foi das campanhas mais bem conseguidas, de sempre, de uma entidade governamental em Portugal.

Quem não se recorda do videoclip em que aparecia o João Verdinho e cantava uma música, em que, durante a mesma, passava por um local em que havia eletrodomésticos e lixo abandonado e dizia: “Mas o que se passa aqui?”, ele ficava preocupado e depois apelava ao reduzir, reutilizar e reciclar… Algo que parece que voltou a estar esquecido da nossa população.

O Mundo necessita de novos “Joões Verdinhos” em que se volte a tratar do meio ambiente, mas devemos começar a tratar melhor a nossa Laurissilva, que, neste momento, está meia despida, semi-nua, mas também o nosso parque natural, que perdeu o seu mar verde, devido aos incêndios, mas também às nossas ribeiras e ribeiros. Agora urge recuperar, necessitamos voltar a mostrar as nossas paisagens, a integração cosmopolita com o meio ambiente, e criar incentivos para que a Região Autónoma da Madeira, mas também o Mundo seja mais sustentável do ponto de vista ambiental.

A Amazónia arde, como ardeu Pedrogão, como ardeu o Pinhal de Leiria, como ardeu a Califórnia, como há dias ardia Canárias… Ninguém tomará essas terras, por não serem fundamentais ao Mundo, mas querem a Amazónia?! Todos pela grande floresta tropical, para que não seja a “Amazónia insónia do Mundo”, como diz um refrão de um poema cantando pelo grande cantor brasileiro Roberto Carlos.

Publicado no JM-Madeira